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Amazônia, a maior floresta tropical do planeta

Foto do escritor: blogviajantee
blogviajantee
há 23 horas
16 min de leitura

Uma experiência de 3 dias e 2 noites passeando pela mata, navegando pelo rio, dormindo na selva e observando várias espécies de animais e plantas da Floresta Amazônica.


Embora eu ame viajar para cidades, fazer turismo urbano e aproveitar a energia das metrópoles, o que realmente faz o meu coração bater mais forte é o contato direto com a natureza, a busca por lugares "raiz" e a contemplação de paisagens naturais. Foi exatamente dentro desse contexto que viemos parar no Estado do Amazonas, com o desejo de vivenciar de perto a imensidão da maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, reconhecida como uma das Sete Maravilhas do Mundo Natural. Trata-se de um ecossistema gigantesco que se estende por nove países da América do Sul, sendo a maior parte no Brasil, abrangendo os estados do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Tocantins. A grandiosidade da floresta impressiona em números: são mais de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de cobertura vegetal que abrigam cerca de 10% de toda a biodiversidade conhecida no mundo, reunindo mais de 40 mil espécies de plantas, 1.300 espécies de aves e milhares de tipos de peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, em uma teia viva simplesmente fascinante.


Na Floresta Amazônica
Na Floresta Amazônica

Para conhecer a floresta amazônica de verdade, escolhemos ingressar em uma aventura de Passeio na Selva, oferecida pela Iguana Turismo. Ao pesquisar sobre a viagem, percebemos que existem diversas opções de pousadas e hotéis de selva, além de pacotes com diferentes números de dias. Nossa primeira decisão foi pela Pousada Juma Lake, escolha que fizemos após ver inúmeros vídeos e recomendações muito positivas na internet. Apesar de não ser um lodge de luxo como muitos dos hotéis caros que existem na Amazônia, a pousada nos pareceu extremamente aconchegante, e os chalés de madeira prometiam entregar uma experiência autêntica e com um preço muito justo. Com a hospedagem definida, precisávamos escolher qual itinerário fazer, optamos então pelo Pacote Iguana, que consiste em uma imersão de 3 dias e 2 noites. O valor desse pacote ficou em R$ 1.434,50 por pessoa.


Pousada Juma Lake
Pousada Juma Lake

A nossa aventura começou bem cedo, quando uma van nos buscou em nosso hotel em Manaus por volta das 7h30 da manhã. Ali dava-se início a um deslocamento dinâmico e multistrada até o coração do Lago do Juma, um entroncamento do Rio Paraná do Mamori. A primeira etapa foi um trajeto curto de apenas 15 quilômetros em cerca de 25 minutos até o Porto da Ceasa, onde embarcamos em uma lancha rápida. No caminho pelo rio, fizemos uma breve parada para contemplar novamente o espetáculo do Encontro das Águas. Já havíamos vivenciado esse fenômeno de perto durante o passeio Day Tour Fluvial; apesar disso, foi incrível vê-lo novamente, e entender ainda mais o porquê de as águas escuras do Rio Negro e as águas barrentas do Rio Solimões correrem lado a lado por quilômetros sem se misturar.


Encontro das Águas do Rio Negro e do Rio Solimões
Encontro das Águas do Rio Negro e do Rio Solimões

Após alguns minutos observando o fenômeno, voltamos a navegar até finalmente, depois de aproximadamente 18 quilômetros e 40 minutos dentro da lancha rápida, desembarcarmos no Porto do Careiro, localizado no município de Careiro da Várzea, do outro lado do Rio Solimões em relação a Manaus.


Lancha rápida no Porto do Careiro
Lancha rápida no Porto do Careiro

É no município de Careiro da Várzea que se inicia a BR-319, por onde seguimos de kombi por mais 60 quilômetros (percurso que levou cerca de 1 hora) até o Rio Paraná do Mamori. Por fim, pegamos um último barco, e desta vez navegamos por cerca de 20 quilômetros em 45 minutos pelos igarapés até a Pousada Juma Lake, que está localizada no território pertencente ao município de Autazes. No total, foram aproximadamente 4 horas de uma viagem cheia de trocas de transporte, mas tão bonita e movimentada que o tempo passou voando.

Ao desembarcarmos, fomos recebidos para o check-in na Pousada Juma Lake, um refúgio rústico e acolhedor, onde fomos apresentados ao experiente guia que nos acompanharia nesses três dias, o Ceará. Ficamos instalados em uma cabana privativa de madeira, equipada com ventilador para amenizar o calor amazônico e banheiro próprio. Um dos grandes destaques do local é o seu charmoso restaurante flutuante, onde são servidas todas as refeições, cujo valor está incluso no pacote. Pontualmente às 12 horas, o almoço foi servido em formato de buffet, com pratos saborosos da culinária regional.


Cabanas da Pousada Juma Lake
Cabanas da Pousada Juma Lake

Aproveitamos as primeiras horas da tarde após o almoço para caminhar sem pressa e conhecer melhor toda a estrutura da Pousada Juma Lake, observando a vegetação ao redor e a diversidade de pássaros que frequentam as árvores do local. Em uma das árvores, fomos presenteados com a presença de vários exemplares do Periquito Testinha (Forpus xanthopterygius), também conhecido popularmente como Tuim. Considerado uma das menores espécies de psitacídeos (a mesma família dos papagaios e araras) das Américas, mede em torno de apenas 12 centímetros de comprimento. Conhecidos por sua coloração verde viva com a testa amarela, esses pequenos periquitos alimentando-se principalmente de sementes, brotos e frutos.


Periquitos Testinha na Pousada Juma Lake
Periquitos Testinha na Pousada Juma Lake

Por volta das 15 horas, partimos para o nosso primeiro passeio oficial: o reconhecimento de barco da região do Lago Juma. Durante o percurso, tivemos o privilégio de observar várias espécies de aves e macacos que habitam a região.

Nossos primeiros avistamentos foram alguns imponentes exemplares da Garça Moura (Ardea cocoi). Essa é considerada a maior garça do Brasil e da América do Sul, podendo alcançar até 1,25 metro de altura e uma envergadura de asas impressionante de quase dois metros.


Garça Moura na região do Lago Juma
Garça Moura na região do Lago Juma
Garça Moura na região do Lago Juma
Garça Moura na região do Lago Juma

Logo na sequência, encontramos algumas espécies de macacos, sendo a primeira delas o Macaco Bugio Preto da Amazônia (Alouatta nigerrima). Esse primata é famoso por emitir um dos sons mais potentes do reino animal, um urro grave e ressonante que pode ser ouvido a quilômetros de distância na floresta, que tem como objetivo delimitar e defender o território do bando.


Macaco Bugio Preto da Amazônia na região do Lago Juma
Macaco Bugio Preto da Amazônia na região do Lago Juma

Continuando a nossa navegação, logo fomos agraciados com a presença de um bando gracioso de Macacos de Cheiro (Saimiri sciureus), um dos primatas mais ágeis e curiosos da Amazônia. O nome popular "Macacaco de Cheiro" deve-se ao hábito marcante de esfregarem a própria urina nas patas e na cauda, uma estratégia fundamental para deixarem pistas odoríferas no seu trajeto, demarcando o território e permitindo que os membros do bando sigam a mesma rota em meio à densa folhagem da floresta.


Macaco de Cheiro na região do Lago Juma
Macaco de Cheiro na região do Lago Juma

Pouco depois, fomos contemplados com o aparecimento de uma família de Macacos Prego (Sapajus apella). Com sua pelagem em tons de castanho e o característico topo da cabeça mais escuro, que lembra a cabeça de um prego, essa espécie é amplamente reconhecida pela habilidade no uso de ferramentas, utilizando pedras e galhos rígidos para quebrar castanhas e frutos de casca dura.


Macaco Prego fêmea na região do Lago Juma
Macaco Prego fêmea na região do Lago Juma
Macaco Prego macho na região do Lago Juma
Macaco Prego macho na região do Lago Juma

O próximo achado foi uma ave extraordinária e repleta de peculiaridades: a Cigana (Opisthocomus hoazin). Considerada uma espécie pré-histórica e sem parentes próximos vivos. Ela possui um sistema digestivo único entre as aves, funcionando de forma semelhante ao dos ruminantes. Por conta desse processo digestivo, a ave exala um odor forte e característico. Outra curiosidade fascinante é que os filhotes nascem com garras funcionais nas asas, uma adaptação ancestral que os ajuda a escalar os galhos das árvores caso caiam na água para fugir de predadores.


Cigana na região do Lago Juma
Cigana na região do Lago Juma

Na sequência da nossa navegação, avistamos um lindo Gavião Caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), uma ave de rapina comum nas áreas alagadas da Amazônia. Chamou nossa atenção o seu bico fino e fortemente curvado em formato de gancho, uma adaptação evolutiva perfeita para extrair o corpo de caramujos aquáticos de dentro de suas conchas rígidas. Tivemos a sorte de flagrar um exemplar exatamente com um caramujo preso ao bico, prestes a saboreá-lo; contudo, a agilidade do momento não nos permitiu registrar a foto a tempo.


Gavião Caramujeiro na região do Lago Juma
Gavião Caramujeiro na região do Lago Juma

Depois de explorar a região, era hora da famosa pesca de piranhas. Utilizando varas tradicionais de bambu e pedacinhos de frango como isca, colocamos a nossa paciência e agilidade à prova nas águas calmas do rio. Tive a sorte de fisgar uma Piranha Vermelha (Pygocentrus nattereri), o que me permitiu observar bem de perto a impressionante anatomia da sua mandíbula e seus dentes afiados e serrilhados.


Pesca de Piranha no Lago Juma
Pesca de Piranha no Lago Juma

Concluída a pescaria, navegamos mais um pouco e fizemos uma parada no meio do Lago Juma para um delicioso banho de rio, enquanto contemplávamos o pôr do sol, que, infelizmente, apresentou-se um pouco tímido naquele dia.

Banho ao pôr do sol no Lago Juma
Banho ao pôr do sol no Lago Juma

Era hora de retornar à pousada para o jantar e, durante a navegação de volta, ainda nos deparamos com uma árvore carregada de Garças Brancas Pequenas (Egretta thula) e Biguás (Nannopterum brasilianum). O contraste visual entre o branco puro das garças e o tom escuro dos biguás deixou o final da nossa tarde ainda mais especial. Uma curiosidade sobre os biguás é que eles não possuem a camada impermeabilizante de óleo nas penas presente em outras aves aquáticas; por isso, após seus mergulhos ágeis para pescar, costumam pousar nos galhos com as asas bem abertas ao sol para secá-las.


Garças Brancas Pequenas e Biguás sobre uma árvore na região do Lago Juma
Garças Brancas Pequenas e Biguás sobre uma árvore na região do Lago Juma

Nosso jantar na Pousada Juma Lake ocorreu às 19h e, logo após, por volta das 20h30, emendamos a última atividade do dia: a focagem de jacarés. No breu da noite, nosso guia Ceará usou uma lanterna para localizar os reflexos vermelhos e brilhantes dos olhos dos répteis na superfície da água. Com muita habilidade, ele conseguiu capturar com cuidado um filhote de Jacaretinga (Caiman crocodilus) e o trouxe para a embarcação para podermos observá-lo de perto e até tirarmos fotos com o animal. Antes de devolvê-lo em segurança ao seu habitat, o Ceará nos explicou que essa é a espécie de jacaré mais abundante da região amazônica. Ele nos mostrou detalhes fascinantes de sua anatomia, como a pálpebra transparente (membrana nictitante) que protege os olhos do animal enquanto ele nada e a sensibilidade de suas escamas ao menor movimento na água. Além disso, destacou o papel fundamental dos jacarés no equilíbrio do ecossistema aquático, controlando as populações de peixes e enriquecendo a água com nutrientes essenciais para a cadeia alimentar local.


Filhote de Jacaretinga no Lago Juma
Filhote de Jacaretinga no Lago Juma

Voltamos para a pousada e logo nos recolhemos ao quarto para descansar e encerrar com chave de ouro nosso primeiro dia. O segundo dia começou bem cedo, às 5h30, quando saímos de barco para ver o nascer do sol no meio do lago. Ver a luz do dia despontar enquanto a floresta desperta é uma experiência verdadeiramente poética, que rende fotos espetaculares.


Nascer do sol no Lago Juma
Nascer do sol no Lago Juma
Nascer do sol no Lago Juma
Nascer do sol no Lago Juma
Nascer do sol no Lago Juma
Nascer do sol no Lago Juma

E depois desse impressionante nascer do sol, enquanto voltávamos para a pousada, conseguimos observar uma imponente Biguatinga (Anhinga anhinga). Assim como os Biguás, a Biguatinga não possui a camada impermeabilizante de óleo nas penas, o que a torna uma mergulhadora excepcional e ágil para arpoar peixes sob a água, mas exige que ela passe bastante tempo nos galhos altos com as asas estendidas para secar.


Biguatinga na região do Lago Juma
Biguatinga na região do Lago Juma

Voltamos à pousada para tomar o café da manhã às 7 horas. Em seguida, preparamos nosso equipamento, vestimos roupas adequadas e caprichamos no repelente, itens indispensáveis para o que viria a seguir. Às 8 horas, embarcamos rumo à selva fechada e, após ancorar o barco na margem, iniciamos a caminhada pela mata. A trilha foi uma verdadeira aula viva com o nosso guia Ceará.

Logo no início, encontramos estruturas em formato de chaminé feitas de terra avermelhada sobre o solo. O Ceará nos explicou que esses túneis são erguidos pelas ninfas de cigarras (família Cicadidae), que passam anos, vivendo no subsolo e se alimentando da seiva das raízes das árvores. Ao final de seu longo desenvolvimento subterrâneo, as ninfas constroem essas chaminés de lama para emergirem até a superfície, subindo nos troncos e vegetações próximas para realizar a última ecdise (a troca de esqueleto) e se transformarem em adultos alados. É surpreendente saber que, após toda essa longa espera debaixo da terra, a cigarra adulta vive apenas de duas a quatro semanas, período dedicado exclusivamente a cantar, acasalar e perpetuar a espécie antes de morrer.


Chaminés de Ninfas de Cigarra na Selva Amazônica
Chaminés de Ninfas de Cigarra na Selva Amazônica

Na continuação do nosso percurso, conhecemos diversas árvores famosas por suas essências aromáticas e óleos essenciais, amplamente empregados na indústria de cosméticos por marcas como Natura e O Boticário.

Mais adiante, encontramos o enorme formigueiro das Formigas Saúvas (gênero Atta), super tradicionais e valorizadas na culinária indígena.


Formigueiro de Formigas Saúvas na Selva Amazônica
Formigueiro de Formigas Saúvas na Selva Amazônica

Outra espécie de formiga que encontramos por lá foi a Formiga Cabo Verde (Paraponera clavata), também conhecida por Formiga Bala porque, segundo relatos de quem já foi picado por esse inseto, sua picada causa uma dor insuportável, comparada à sensação de ser atingido por um tiro. Considerada uma das picadas mais dolorosas do reino animal (liderando o topo do Índice Schmidt de Dor por Picadas de insetos), essa espécie habita o solo e os troncos e possui uma potente neurotoxina defensiva chamada poneratoxina, que age diretamente no sistema nervoso e causa dores intensas que podem durar até 24 horas.


Formiga Cabo Verde encontrada na Selva Amazônica
Formiga Cabo Verde encontrada na Selva Amazônica

Em seguida, conhecemos a Palmeira de Babaçu (Attalea speciosa), carinhosamente apelidada pelo nosso guia Ceará como o "Bombril da Amazônia" por suas "mil e uma utilidades". O Ceará nos explicou que, em uma situação de sobrevivência ao se perder na mata, essa planta oferece recursos valiosos: a raspagem fina do seu caule pode ser aplicada sobre ferimentos para estancar sangramentos, enquanto a raspagem mais grossa serve como excelente acendalha para iniciar o fogo. Suas palhas são a matéria-prima tradicional usada pelos povos indígenas para trançar o telhado de suas habitações, servindo também para estruturar a cobertura e a cama de uma cabana improvisada na mata contra intempéries e animais.

Além disso, é no interior do coco de babaçu que o Besouro do Coco (Pachymerus nucleorum) deposita seus ovos. A larva, conhecida popularmente como tapuru ou gundu, nasce e cresce alimentando-se exclusivamente da polpa interna da amêndoa. O guia nos explicou esse ciclo e, para a surpresa de todos, comprovamos em um verdadeiro momento "raiz": experimentamos a larva, que é uma riquíssima fonte de proteínas e surpreendentemente possui um sabor acentuado e agradável de coco fresco.


Larva de besouro dentro do coco de babaçu na Selva Amazônica
Larva de besouro dentro do coco de babaçu na Selva Amazônica
Degustando Larvas do Besouro do Coco na Selva Amazônica
Degustando Larvas do Besouro do Coco na Selva Amazônica

Depois de degustar a peculiar larvinha, encontramos a Paxiúba (Socratea exorrhiza), uma árvore capaz de se mover, projetando novas raízes escoras (estipitiformes) na direção da luz solar enquanto as raízes antigas do lado oposto vão secando e morrendo. Esse processo lento faz com que a palmeira consiga deslocar sua base por alguns centímetros ao longo dos anos para buscar melhores condições de luminosidade no sub-bosque da floresta.


Raízes Escoras da Paxiúba na Selva Amazônica
Raízes Escoras da Paxiúba na Selva Amazônica

Na sequência, descobrimos como os indígenas se comunicavam na floresta: batendo com pedaços de madeira nas imponentes sapopemas (raízes tabulares) das gigantescas Sumaúmas (Ceiba pentandra), produzindo um som ecoante que se propaga por longas distâncias.


Comunicação na Selva Amazônica: batendo com madeira nas sapopemas de uma sumaúma
Comunicação na Selva Amazônica: batendo com madeira nas sapopemas de uma sumaúma

Também ficamos impressionados com a imponência de uma Castanheira do Brasil (Bertholletia excelsa), que, segundo nosso guia, possui cerca de 250 anos de idade.


Árvore Castanheira do Brasil na Selva Amazônica
Árvore Castanheira do Brasil na Selva Amazônica

Por fim, vivemos mais uma experiência interativa ao encostar as mãos no tronco de uma árvore para que Formigas Tupibas (Pseudomyrmex triplarinus) caminhassem sobre nossa pele. Ao esfregá-las suavemente entre as mãos, elas liberam uma secreção de aroma ácido bastante característico, que atua como um potente repelente natural contra insetos na mata.


Formigas Tupibas na Selva Amazônica
Formigas Tupibas na Selva Amazônica

Após essa imersão na selva, retornamos de barco à pousada para o almoço, servido pontualmente às 12h. Arrumamos nossas mochilas com o essencial para pernoitar na mata e, às 15h, embarcamos novamente rumo à floresta para realizar o acampamento selvagem.

Assim que chegamos, nossa primeira tarefa foi montar a estrutura das redes com mosquiteiros no acampamento.


Redes com mosquiteiros no acampamento na Selva Amazônica
Redes com mosquiteiros no acampamento na Selva Amazônica

O jantar foi preparado da forma mais autêntica possível: nosso guia, Ceará, utilizou palhas da Palmeira de Babaçu e nos ensinou a trançá-las para criar uma criativa toalha de mesa no formato de um peixe.

Com a toalha pronta, voltamos de barco até o meio do Lago Juma para um banho refrescante ao pôr do sol.


Banho ao pôr do sol no Lago Juma
Banho ao pôr do sol no Lago Juma

Ao retornarmos ao acampamento, Ceará acendeu uma fogueira improvisada na terra e começou os preparos da refeição: carne de porco, pirarucu, arroz, batata e cenoura. Tudo estava delicioso.


Fogueira do jantar na Selva Amazônica
Fogueira do jantar na Selva Amazônica
Jantar na Selva Amazônica
Jantar na Selva Amazônica

Com todos satisfeitos, era hora de voltar ao barco, dessa vez para vivenciar a floresta à noite e procurar a fauna noturna. Munido de uma lanterna, não demorou muito para que Ceará encontrasse em uma árvore e trouxesse para dentro da embarcação uma perereca do gênero Boana.


Perereca do gênero Boana na Selva Amazônica
Perereca do gênero Boana na Selva Amazônica

Finalizada a exploração noturna e de volta ao acampamento, encontramos a habitante permanente do local: uma enorme Tarântula de Pés Rosados (Avicularia avicularia). Trata-se de uma espécie de aranha arbórea inofensiva aos humanos. De hábitos noturnos, ela habita as cascas de árvores e folhas na Amazônia, utilizando a vibração do ambiente para caçar pequenos insetos na escuridão e atuando como um predador essencial no equilíbrio do ecossistema local.


Tarântula de Pés Rosados em um árvore na Selva Amazônica
Tarântula de Pés Rosados em um árvore na Selva Amazônica

O dia foi intenso e repleto de experiências memoráveis; restava agora desfrutar do conforto das redes e adormecer ao som da natureza. Por sorte, não havia muitos mosquitos e logo peguei no sono. Porém, por volta das 2h da manhã, fomos despertados por um som impressionante: o uivo dos bugios, a mesma espécie que tínhamos avistado durante o reconhecimento da região no primeiro dia. Dormir na rede, no meio da escuridão da Amazônia e embalados por uma verdadeira sinfonia da floresta, foi algo inesquecível. Despertamos com a claridade da manhã, desmontamos nosso acampamento e retornamos à pousada para o café da manhã, ocorrido pontualmente às 7h.

Até então, todas as nossas atividades — como o acampamento na floresta e o reconhecimento da área — haviam se concentrado na região do Lago Juma, a oeste da Pousada Juma Lake. Dessa vez, embarcamos às 8h30 e tomamos o sentido oposto, navegando pelo Rio Paraná do Mamori em direção ao leste até a propriedade de um ribeirinho local. Fizemos uma pausa em sua residência para efetuar o pagamento da taxa de visitação (no valor de R$ 20,00 por pessoa) e, em seguida, fomos contemplar a maior árvore da região: uma imponente sumaúma (Ceiba pentandra) que, segundo nosso guia Ceará, possui cerca de 350 anos de idade. Conhecida como a "rainha da floresta", essa árvore monumental destaca-se por possuir folhas pequenas que permitem a passagem da luz solar, beneficiando a vegetação do sub-bosque que cresce sob sua copa. Além disso, suas raízes profundas e troncos massivos dotados de raízes tabulares (sapopembas) possuem uma incrível capacidade de acumular água, funcionando como um reservatório natural que abastece e garante a sobrevivência das plantas ao redor durante os períodos de seca.


Sumaúma na Selva Amazônica
Sumaúma na Selva Amazônica

De volta às águas do Rio Paraná do Mamori, aproveitamos a navegação para contemplar a rica avifauna que habitava as margens do rio. Logo de início, reencontramos duas espécies que eu já havia fotografado nos dias anteriores, mas que nos renderam registros ainda mais belos. Primeiro, mais um exemplar daquela que se tornou minha ave favorita: o elegante Gavião Caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), inconfundível por sua plumagem escura e seus marcantes olhos vermelho-vivo.


Gavião Caramujeiro na Selva Amazônica
Gavião Caramujeiro na Selva Amazônica

Logo em seguida, avistamos um biguá (Nannopterum brasilianum), pousado rente ao espelho d'água.


Biguá na Selva Amazônica
Biguá na Selva Amazônica

Avançando mais um pouco, observamos na margem do rio alguns exemplares do Jaçanã (Jacana jacana). Com seu porte que lembra bastante o de uma pequena galinha, essa ave impressiona pelos dedos e garras extraordinariamente longos. Essa adaptação distribui o seu peso corporal e permite que ela caminhe com incrível desenvoltura tanto pela lama da margem quanto sobre a vegetação aquática flutuante.


Jaçanã na Selva Amazônica
Jaçanã na Selva Amazônica

Foi então que tivemos o privilégio de vivenciar um dos momentos mais inesquecíveis de toda a nossa expedição. Fomos surpreendidos por uma enorme quantidade de Botos Tucuxi (Sotalia fluviatilis) que cercaram nossa embarcação em um espetáculo vibrante. A cada instante, uma grande quantidade de dorsos cinzentos emergia próximo ao barco para respirar, com alguns indivíduos mais arrojados saltando fora d'água. A sensação de estar ali, rodeados por tanta vida no coração da Amazônia, foi um momento de pura magia e conexão com a natureza. Além disso, observar um bando tão numeroso reunido não é apenas um privilégio contemplativo, mas também um indicador biológico fundamental: a presença massiva de tucuxis revela que aquele trecho do Rio Paraná do Mamori ostenta uma farta biodiversidade aquática e águas de altíssima qualidade ambiental.


Botos Tucuxi no Rio Paraná do Mamori
Botos Tucuxi no Rio Paraná do Mamori
Botos Tucuxi no Rio Paraná do Mamori
Botos Tucuxi no Rio Paraná do Mamori

Dando sequência à nossa jornada pelo Rio Paraná do Mamori, desembarcamos na propriedade de Dona Zila, uma acolhedora ribeirinha residente na margem do rio. No seu sítio, fomos introduzidos à riqueza da flora frutífera amazônica e pudemos conhecer e degustar diversas espécies locais diretamente do pé. Entre as variedades apresentadas, destacou-se o Cacau da Amazônia ou Cacauí (Theobroma speciosum); o Ingá (Inga edulis) e o Caju (Anacardium occidentale). Também conhecemos a cuiteira (Crescentia cujete) e seu fruto, o cuité (ou cuia), cujas cascas, por serem extremamente duras e lenhosas, são secas e limpas artesanalmente para confeccionar os recipientes tradicionais em que são servidas iguarias emblemáticas da culinária amazônica, como o tacacá.


Ingá, Cacau da Amazônia, Cuia e Caju
Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Ingá, Cacau da Amazônia, Cuia e Caju

Além da imersão na botânica local no sítio da Dona Zila, nosso guia Ceará nos explicou detalhadamente sobre a tradição e o rigor do processo artesanal de fabricação da farinha de mandioca. Ele nos detalhou desde a colheita da mandioca-brava (Manihot esculenta), passando pelas etapas essenciais de desintoxicação na água (massa fermentada/mandioca-massa), a prensagem no tipiti para a extração do tucupi, até a ralagem, peneiragem e a finalização no forno de torra a lenha — um saber ancestral que representa a base da subsistência e da identidade cultural de todo o povo ribeirinho.

Ainda no sítio, fomos presenteados com a visão de um lindo Chora Chuva Preto (Monasa nigrifrons) repousando sobre o galho de uma árvore, destacando seu bico laranja-avermelhado vibrante. O nome popular "chora-chuva" vem de uma antiga crença popular amazônica: diz-se que o canto melancólico dessa ave anuncia a chegada de tempestades na floresta.


Chora Chuva Preto no Sítio da Dona Zila
Chora Chuva Preto no Sítio da Dona Zila

Com a visita ao sítio concluída, voltamos ao barco para pegar o caminho de volta até a pousada. No percurso, fomos presenteados com a visão de uma lindíssima Iguana Verde (Iguana iguana). Esse réptil destaca-se por sua incrível capacidade de se camuflar entre a folhagem e por possuir o chamado "terceiro olho" (olho parietal) no topo da cabeça, uma estrutura fotorreceptora que detecta variações de luz e sombra, ajudando a identificar a aproximação de predadores vindos do céu. Que coincidência poética: parecia que a própria agência de viagens que contratamos para essa expedição (a Iguana Tour) havia "enviado" a iguana para fechar nossa jornada com chave de ouro!


Iguana Verde na Selva Amazônica
Iguana Verde na Selva Amazônica

Com o sentimento de dever cumprido e a bagagem cheia de memórias, saboreamos o nosso último almoço regional na Pousada Juma Lake e nos despedimos de toda a equipe. Por volta das 13h, iniciamos o percurso de retorno, refazendo o trecho de barco, kombi, lancha e van em um trajeto de cerca de 4 horas. Chegamos a Manaus por volta das 17h, com a alma renovada por ter vivenciado a maior floresta do mundo da forma mais autêntica possível.

De volta à capital, fomos direto para a nossa acomodação, o Hotel Saint Paul, para relaxar, tomar um banho e arrumar as malas. À noite, saímos a pé para caminhar cerca de 400 metros até o movimentado Largo de São Sebastião, ansiosos para degustar mais dois ícones da culinária amazonense. Nossa primeira parada foi no tradicional restaurante Tambaqui de Banda, onde provamos o autêntico açaí regional, servido puro com açúcar e farinha de tapioca, acompanhado de mais um refrigerante local, o Guaraná Tuchaua.


Açaí e Guaraná Tuchaua no Restaurante Tambaqui de Banda
Açaí e Guaraná Tuchaua no Restaurante Tambaqui de Banda

Em seguida, logo ao lado no Restaurante Roseiral, experimentamos o famoso X-Caboquinho, o sanduíche mais emblemático de Manaus, preparado no pão francês crocante recheado com lâminas de tucumã, queijo coalho derretido e fatias de banana-pacovã frita. Foi a combinação perfeita de sabores para celebrar a nossa despedida da gastronomia local.


X-Caboquinho no Restaurante Roseiral
X-Caboquinho no Restaurante Roseiral

Durante a madrugada, pegamos um Uber até o Aeroporto de Manaus (custando R$ 28,00) e embarcamos no voo com destino a São Paulo, encerrando essa viagem verdadeiramente inesquecível.

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