Day Tour Fluvial, uma imersão na cultura e na natureza ao redor de Manaus

Um roteiro bate-volta de um dia a partir de Manaus, navegando pelo rio e descobrindo uma comunidade indígena, um seringal e os encantos da Amazônia.
Depois de passar um dia inteiro explorando a vibrante capital amazonense, chegou o momento de vivenciarmos a grandiosidade da floresta e dos rios que cercam a região. Para essa aventura, escolhemos um dos mais famosos passeios bate-volta a partir de Manaus: o Day Tour Fluvial. Reservamos o passeio compartilhado com a Iguana Turismo (nosso grupo foi composto por 21 pessoas, mais a nossa guia Érica e o motorista do barco Márcio), um tour de dia inteiro que custou 370,50 reais por pessoa e nos proporcionou uma imersão na cultura, na história e nas paisagens da Amazônia.

Nossa jornada começou cedo: por volta das 7h20 da manhã, uma van veio nos buscar no hotel para nos levar até o Píer Lúcia Almeida, localizado na orla de Manaus. Lá, embarcamos em uma lancha rápida para navegar durante cerca de 45 minutos pelas águas escuras do Rio Negro até a nossa primeira parada do dia: a Comunidade Indígena Cipiá.

No trajeto de barco até a aldeia, passamos por baixo da Ponte do Rio Negro (oficialmente Ponte Jornalista Phellippe Daou), uma impressionante estrutura estaiada que conecta Manaus ao município de Iranduba. Construída entre os anos de 2007 e 2011 e inaugurada em outubro de 2011, a ponte destaca-se pelos seus 3,6 quilômetros de extensão sobre as águas escuras do rio, sendo a maior ponte estaiada em água doce do Brasil. Contudo, a obra ficou fortemente marcada por controvérsias devido ao seu expressivo custo, orçado inicialmente em cerca de R$ 570 milhões, mas cujos aditivos e reajustes fizeram o valor total ultrapassar R$ 1 bilhão, tornando-se alvo de intensos debates e investigações sobre superfaturamento e transparência na gestão dos recursos públicos.

Finalmente chegamos à Comunidade Indígena Cipiá, onde fomos calorosamente recebidos pelo cacique Guy, que nos passou as informações gerais sobre o local e nos deu as boas-vindas. Ele nos explicou que o nome "Cipiá" significa "povo alegre" na língua tucana. A aldeia é formada por famílias que migraram da região do Alto Rio Negro, próxima à fronteira com a Colômbia, entre as décadas de 1980 e 1990 em busca de melhores condições de vida, reunindo representantes de quatro etnias do grupo linguístico tucano: Tuyuca, Macuna, Cubeo e Desana (ou Tuyuka, Makuna, Kopeua e Dessanha).

Historicamente, a família linguística Tucano não formava uma única tribo, mas sim uma rede de povos ancestrais do Alto Rio Negro que compartilhavam raízes culturais e viviam em grandes malocas comunitárias. Uma das características mais fascinantes dessa cultura é o multilinguismo: por tradição, o casamento só ocorre entre pessoas de etnias e línguas diferentes, fazendo com que os membros cresçam dominando diversos idiomas nativos. Os primeiros contatos com os não indígenas ocorreram ainda no século XVII, intensificando-se no século seguinte com expedições de escravização e, mais tarde, com a exploração do Ciclo da Borracha e a imposição de missões religiosas. Ao longo do tempo, a busca por autonomia e a abertura para o etnoturismo em Manaus tornaram-se uma forma sustentável de gerar renda e, ao mesmo tempo, manter vivas suas tradições ancestrais.

A visita à comunidade durou cerca de uma hora e foi repleta de trocas culturais marcantes. Nossa primeira atividade foi a pintura facial com pigmentos naturais, uma vivência opcional feita pelos próprios moradores, que custou um valor adicional de 20 reais por pessoa.

A comunidade também ofereceu a oportunidade de vivenciar o ritual do rapé, uma medicina sagrada ancestral em pó feita de tabaco e cinzas de plantas medicinais. No ritual, conduzido pelo pajé, o pó não é aspirado pela própria pessoa, mas sim soprado diretamente em suas narinas através de um instrumento de madeira em formato de "V", chamado Tepi. O sopro feito pelo pajé é um ato ritualístico fundamental, pois carrega a intenção e a energia do direcionador, ajudando no alinhamento da mente, na clareza espiritual e na limpeza das energias e das vias respiratórias. Essa experiência profunda e de respeito às tradições nativas foi realizada por algumas pessoas do nosso grupo, e dessa forma pudemos observar como ela acontece.


Para fechar o momento na aldeia, assistimos a uma emocionante apresentação de danças e cantos tradicionais indígenas dentro do enorme galpão de madeira (a maloca principal da comunidade). Durante a celebração, os indígenas apresentaram a dança Maroca, a dança de carisso, a dança do japurutu e a dança com tubo de ritmo, utilizando esses instrumentos de sopro e percussão artesanais para criar uma atmosfera única e envolvente. Antes de nos despedirmos, pudemos contemplar o belo artesanato confeccionado pelos próprios moradores e adquirir um souvenir local para apoiar a comunidade.

Saindo da comunidade, navegamos em nossa lancha rápida por cerca de 15 minutos pelo Rio Negro até chegarmos ao Museu do Seringal Vila Paraíso (a taxa de ingresso no museu está inclusa no valor total do passeio). O espaço é fascinante não apenas pelo seu valor histórico, mas também pela sua origem: ele foi originalmente construído como set de filmagem para o longa-metragem A Selva, gravado em 2001 (lançado em 2002) pela produtora portuguesa Utopia Filmes, sob a direção de Leonel Vieira e estrelado por Maitê Proença e Claudio Marzo. Após as filmagens, a estrutura foi doada ao Governo do Estado do Amazonas e transformada em um museu vivo.

A visita guiada pelo museu expõe a gritante desigualdade social do Ciclo da Borracha. Primeiro, conhecemos a luxuosa casa do coronel seringalista (o dono do seringal), decorada com móveis requintados, porcelanas portuguesas, cristais e espelhos importados da Europa, uma demonstração de opulência no meio da floresta.

Logo depois, passamos pela casa do capataz, o homem encarregado de vigiar o trabalho e manter a disciplina rígida dos trabalhadores.

Por fim, chegamos à extremamente humilde habitação do seringueiro: uma palafita simples de madeira, contendo apenas uma rede para dormir e escassos pertences. Ali, compreendemos a cruel engrenagem do sistema de aviamento (endividamento). Embora não fosse uma escravidão formal, os seringueiros, em sua maioria nordestinos atraídos por falsas promessas de riqueza, já chegavam devendo o valor da passagem e eram obrigados a comprar suas ferramentas de trabalho, roupas e mantimentos no barracão do próprio coronel, a preços abusivos. Como a produção cobria raramente essas despesas inflacionadas, o trabalhador entrava em um ciclo perpétuo de endividamento que o impedia legal e fisicamente de abandonar o serviço.

Durante o percurso pelas trilhas do seringal, também pudemos entender mais sobre o processo artesanal da época: desde os cortes diagonais no tronco da seringueira (Hevea brasiliensis) para sangrar o látex branco e o recolhimento do líquido nas tigelas de metal, até o tapiri de defumação. Nesse local fumaçento, o látex extraído era continuamente banhado e girado em uma haste de madeira sobre a fumaça de castanhas queimadas para secar, camada por camada, formando as pesadas "pélas" de borracha que eram exportadas para o mundo.

Após essa verdadeira aula de história no museu, embarcamos novamente na lancha para um deslocamento de cerca de 40 minutos até o Restaurante Flutuante Selva Amazônica, estrategicamente localizado às margens do majestoso Rio Negro. Ali, fomos presenteados com um delicioso almoço regional no estilo buffet livre, em que pudemos comer à vontade (já com o valor totalmente incluso no pacote do passeio). Tivemos a oportunidade de degustar pratos típicos da culinária amazonense, como os deliciosos peixes Pirarucu e Tambaqui, perfeitos para renovar as energias antes de darmos sequência às próximas paradas do nosso roteiro.

Com as energias renovadas, navegamos por mais 40 minutos até um dos espetáculos naturais mais impressionantes do planeta: o Encontro das Águas. Ver as águas escuras, ácidas e de fluxo mais rápido do Rio Negro correrem lado a lado com as águas barrentas, ricas em sedimentos e de temperatura e velocidade diferentes do Rio Solimões por quilômetros sem se misturar é um fenômeno fascinante. Essa não mistura ocorre justamente devido a essas disparidades físico-químicas marcantes entre os dois rios, como a diferença de temperatura, densidade e velocidade da correnteza, fazendo com que demorem muito tempo para se fundirem completamente.

Dali foram cerca de 20 minutos de navegação até o famoso Parque Ecológico do Janauari, uma reserva natural repleta de atrativos surpreendentes. A primeira parada no parque foi na Feira de Artesanato Janauarilândia, uma estrutura flutuante repleta de peças feitas à mão por moradores locais. O espaço valoriza imensamente a produção regional e colocou nosso grupo em contato direto com os artesãos, onde não resistimos e garantimos mais um souvenir especial para guardar de recordação.

Na sequência, caminhamos pelas passarelas de madeira suspensas sobre a floresta inundada de igapó, a vegetação típica da Amazônia que permanece permanentemente ou sazonalmente alagada por águas escuras e ácidas. Durante a caminhada, encontramos um grande cupinzeiro arbóreo preso ao tronco de uma das árvores. Esse ninho é construído por cupins do gênero Nasutitermes, que utilizam uma mistura de matéria vegetal mastigada (cartão), solo e saliva para erguer estruturas altamente resistentes à chuva e ao clima da floresta.

Logo a frente, encontramos o belo Lago das Vitórias-Régias, onde contemplamos as folhas gigantescas dessas plantas aquáticas icônicas (Victoria amazonica), cujas bordas elevadas e formato circular perfeito podem chegar a atingir até 2,5 metros de diâmetro.

Porém, o ponto alto da visita foi poder ficar diante de uma imponente Sumaúma (Ceiba pentandra), a maior espécie de árvore de todo o ecossistema de igapó. Segundo nossa guia Érica, esse exemplar do Parque do Janauari possui cerca de 250 anos de idade. Conhecida como a rainha da floresta, essa árvore monumental destaca-se por possuir folhas pequenas que permitem a passagem de luz solar, beneficiando a vegetação do sub-bosque que cresce abaixo de sua copa. Além disso, suas raízes profundas e troncos massivos com raízes tabulares (sapopembas) possuem uma incrível capacidade de acumular água, funcionando como um reservatório natural que abastece e garante a sobrevivência de outras plantas ao seu redor durante os períodos de seca, simbolizando perfeitamente a força, a generosidade e a magnitude da floresta amazônica.

Antes de nos despedirmos do parque, ainda pudemos contemplar algumas das aves da região amazônica. Vale lembrar que a Amazônia é um dos maiores santuários ornitológicos do planeta, abrigando mais de 1300 espécies registradas, o que significa que uma em cada cinco espécies de aves encontradas em todo o mundo vive no bioma amazônico. Durante a nossa visita, tivemos a oportunidade de registrar bem de perto dois exemplares emblemáticos da região. A primeira delas foi a Garça Branca Grande (Ardea alba), uma das maiores e mais elegantes espécies de garça. Ela é um predador paciente que vaga lentamente pelas margens de rios, igarapés e áreas alagadas, aguardando o momento exato para dar um golpe rápido com o bico e capturar peixes, anfíbios e pequenos répteis. Durante o período reprodutivo, desenvolve belas penas ornamentais no dorso chamadas egretas, e que, historicamente, levaram a espécie a ser caçada no século XIX para o mercado da moda, mas que hoje se encontra totalmente recuperada e abundante por todo o país.

Em seguida, observamos o Socozinho (Butorides striata), uma garça de pequeno porte. Essa espécie é famosa por sua notável inteligência, sendo uma das poucas aves capazes de usar "ferramentas" ao jogar pequenos objetos na água, como pedaços de folhas, insetos ou frutos, para servir de isca e atrair peixes curiosos até a superfície.

Para coroar o final da tarde, navegamos por alguns poucos minutos até uma Plataforma Flutuante de Pirarucus. Além de servirem como atração turística interativa, essas plataformas e tanques flutuantes desempenham um papel fundamental na reprodução e conservação da espécie. Na plataforma, vivenciamos a pesca esportiva sem anzol, atividade conduzida de forma ecológica e muito divertida, permitindo sentir a força impressionante do gigante da Amazônia. O pirarucu (Arapaima gigas) é considerado um dos maiores peixes de escamas de água doce do mundo e um verdadeiro "fóssil vivo", por ser uma espécie ancestral que habita o planeta há milhões de anos. Ele pode alcançar proporções colossais, atingindo até 3 metros de comprimento e ultrapassando facilmente os 200 quilos!

Ainda pudemos observar uma enorme quantidade de Andorinhas do Rio (Tachycineta albiventer) voando sobre as águas do Rio Negro e eventualmente pousando no flutuante.

Encerrado o tour, a lancha nos levou de volta ao Píer Lúcia Almeida, onde a van da agência já nos aguardava. O trajeto de retorno nos deixou confortavelmente no hotel por volta das 16h30, encerrando a expedição fluvial com aquela sensação boa de dever cumprido e memórias inesquecíveis.
Depois de um merecido descanso e um banho relaxante no nosso hotel, saímos para celebrar o dia com uma experiência gastronômica memorável no renomado Restaurante Banzeiro, do chef Felipe Schaedler. Pegamos um Uber no valor de 20 reais para percorrer os 2,5 quilômetros que separam o hotel do restaurante. A experiência no Banzeiro foi fantástica: de entrada, tivemos a audácia de provar a surpreendente Formiga Saúva com espuma de mandioquinha (uma iguaria típica da culinária indígena).

Como prato principal para dividir, escolhemos o Filé de pirarucu grelhado coberto com queijo coalho, acompanhado do Guaraná Baré., tradicional do Amazonas.

O Day Tour Fluvial combinado com essa noite especial selou de forma perfeita nosso dia de vivência no coração da Amazônia.


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