Manaus, a capital do estado do Amazonas e do norte do Brasil

Um roteiro de um dia conhecendo a metrópole que é a porta de entrada da floresta amazônica.
No coração da maior floresta tropical do planeta está Manaus, a vibrante capital do estado do Amazonas. Com uma população que ultrapassa 2 milhões de habitantes, a metrópole ostenta o posto de 7ª cidade mais populosa de todo o Brasil e a maior de toda a Região Norte. Banhada pelo Rio Negro, Manaus é um ponto de contraste fascinante entre a urbanização e a imensidão da natureza. A economia local tem como um de seus maiores pilares o Polo Industrial da Zona Franca de Manaus. Criada em 1967 com o objetivo de integrar a Amazônia ao restante do país, promover o desenvolvimento regional e compensar os isolamentos logísticos, a Zona Franca oferece incentivos e isenções fiscais estratégicas para atrair grandes indústrias. Além da força desse polo tecnológico e fabril, a economia e o cotidiano da cidade ganham cor e alma na pesca artesanal e esportiva, nos movimentados mercados à beira-rio e em um turismo de experiência vibrante, que atrai viajantes do mundo todo em busca da autêntica vida amazônica.
O charme da cidade guarda marcas de uma época de ostentação e riqueza: o auge do Ciclo da Borracha no final do século XIX. Foi durante o boom da extração do látex que a capital ganhou o apelido de "Paris dos Trópicos", em função da forte influência europeia que transformou sua arquitetura. A elite da época não poupou recursos para erguer monumentos suntuosos que até hoje dominam o cenário urbano, tendo como maior símbolo o imponente Teatro Amazonas. Caminhar pelas praças e ruas do centro histórico é como fazer uma viagem no tempo para o período em que o luxo francês e a exuberância da floresta coexistiam em perfeita harmonia.

A história de Manaus, no entanto, começou muito antes da chegada dos barões do látex. A região era habitada há milênios por uma rica diversidade de populações indígenas, com destaque para os povos Tarumã, Baré e os valentes Manaós (guerreiros conhecidos pela resistência à dominação colonial e cujo nome deu origem ao da própria cidade). O povoamento de origem europeia começou oficialmente em 24 de outubro de 1669, data de fundação de Manaus, assinalada pela construção do Forte de São José do Rio Negro pelos colonizadores portugueses. A pequena vila cresceu estrategicamente ao redor da fortaleza e ao longo das margens do rio, passando de antigo aldeamento indígena a entreposto comercial até ser elevada à categoria de cidade e tornar-se a grande metrópole que hoje serve como a principal porta de entrada para os mistérios e encantos da Amazônia.
Pousamos em Manaus às 10h50 da manhã pelo Aeroporto Internacional Eduardo Gomes (MAO), em um voo vindo de São Paulo. O processo de desembarque foi super ágil: não levamos mais do que 30 minutos entre a saída do avião e a ida até a área do transporte, onde solicitamos um carro por aplicativo. Nosso destino era o centro histórico da cidade, mais especificamente o Hotel Saint Paul, que seria a nossa base pelas próximas duas noites (ao custo de R$ 580 no total para duas pessoas). O trajeto de Uber do aeroporto até o hotel levou cerca de 25 minutos e nos custou 21,50 reais.
Após deixarmos as malas no hotel, demos início ao nosso roteiro por Manaus, caminhando apenas 400 metros até o emblemático Largo de São Sebastião. Verdadeiro coração cultural e histórico da cidade, esta praça destaca-se pelo seu piso em pedras portuguesas nas cores preta e branca, disposto em um padrão ondulado que simboliza o encontro das águas dos rios Negro e Solimões (e que serviu de inspiração para o famoso calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro, sendo inclusive concluído anos antes do carioca, em 1901). O largo foi planejado no final do século XIX, em pleno auge do Ciclo da Borracha, dentro do projeto das elites e governantes de modernizar e embelezar a cidade sob forte influência da Belle Époque e do urbanismo parisiense.
O Largo de São Sebastião deve o seu nome à Igreja de São Sebastião, que domina a praça visualmente. A escolha de São Sebastião como padroeiro e homenageado remonta a meados do século XIX, quando moradores fundaram uma pequena capela de madeira dedicada ao santo; a devoção a ele era especialmente forte na região porque São Sebastião é historicamente invocado pela Igreja Católica como o protetor contra surtos, pestes e epidemias — ameaças constantes no período de crescimento da cidade. O templo atual em alvenaria foi construído entre 1888 e 1889, em pleno auge da opulência do Ciclo da Borracha. Uma das maiores curiosidades da edificação é a presença de apenas uma torre sineira, o que gerou o famoso mito urbano de que o navio que trazia o material restante da Europa para a construção da segunda torre teria afundado no Oceano Atlântico.

Ainda no largo, encontramos o Monumento à Abertura dos Portos às Nações Amigas (popularmente conhecido como a Estátua do Largo de São Sebastião). Criado pelo escultor italiano Domenico de Angelis e inaugurado em 1900, este imponente monumento comemora a abertura da navegação do Rio Amazonas ao comércio internacional, decretada em 1866 por D. Pedro II. A estrutura de mármore e bronze é coroada pela figura da República e cercada, em quatro faces da base, por alegorias que representam os quatro principais continentes com os quais se realizavam as trocas comerciais: América, Europa, Ásia e África.

Como já passava do meio-dia, resolvemos fazer nossa primeira parada gastronômica ali mesmo, em um dos restaurantes localizados no largo, o Tambaqui de Banda, um espaço famoso por servir pratos típicos da culinária amazonense. Aproveitamos para saborear a tradicional banda de tambaqui assada na brasa, acompanhada de vinagrete, farofa e baião de dois, além de experimentar o refrigerante Guaraná Baré, super tradicional do estado do Amazonas.

Saindo do restaurante, demos apenas alguns passos até chegar ao majestoso Teatro Amazonas, o verdadeiro cartão-postal da cidade de Manaus. Sua construção teve início em 1884, mas o monumento só foi inaugurado em 1896, durante o auge do Ciclo da Borracha. Sua arquitetura em estilo renascentista destaca-se pela impressionante cúpula composta por 36 mil azulejos nas cores da bandeira do Brasil, importados da Alsácia, região no nordeste da França. Optamos por apenas tirar fotos na área externa do teatro e não compramos o ingresso no valor de 20 reais para fazer o tour em seu interior, visto que voltaríamos à noite ao local para assistir a uma peça de teatro.

Apenas alguns passos adiante, ainda no entorno do Largo de São Sebastião, encerramos a nossa passagem pela praça contemplando o exterior do imponente Palácio da Justiça. Embora a entrada para visitação guiada custe 10 reais, novamente optamos por apreciá-lo apenas do lado de fora. Encomendado no final do século XIX pelo governador Eduardo Ribeiro para abrigar a sede do Poder Judiciário do Estado do Amazonas , o edifício impressiona de longe por sua arquitetura eclética com marcantes traços neoclássicos e renascentistas. Hoje, o prédio abriga o Centro Cultural Palácio da Justiça, mantendo acesa a riqueza histórica do auge do Ciclo da Borracha.

Dali, uma caminhada de apenas 150 metros nos levou até o Museu Casa Eduardo Ribeiro. O casarão histórico do século XIX serviu de residência oficial a Eduardo Gonçalves Ribeiro, militar, jornalista e primeiro governador negro do Amazonas (que esteve à frente do estado interinamente de 1890 a 1891 e, em seu mandato principal, de 1892 a 1896). Considerado por historiadores o governante mais importante e transformador da história amazonense, foi sob sua gestão durante o auge do Ciclo da Borracha que a capital passou por reformas urbanísticas revolucionárias, como a aceleração e conclusão das obras do Teatro Amazonas, o Reservatório do Mocó, a Ponte Benjamin Constant, o Palácio da Justiça e a chegada da iluminação e dos bondes elétricos. O local preserva a memória dessa belle époque manauara com mobiliários originais de época, objetos pessoais, vestimentas e documentos históricos, oferecendo um vislumbre fascinante do modo de vida da elite política do período. Apesar de a entrada para o museu ser gratuita, não pudemos entrar no museu por estar fechado no dia da nossa visita.

Para alcançar nosso próximo destino na cidade, caminhamos mais 750 metros até a Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição (a Matriz de Manaus). Erguida em 1858 em estilo neoclássico, a igreja foi construída no exato local da antiga capela de palha erguida por missionários carmelitas em 1695 (uma das construções históricas que marcam o próprio surgimento da cidade). Considerada o templo católico mais antigo de Manaus, a catedral destaca-se por sua fachada imponente composta por duas torres e por seu interior sóbrio porém elegante, ocupando uma posição de destaque na Praça da Matriz e carregando uma profunda importância espiritual e histórica para a região.

Logo em frente à igreja está o Relógio Municipal. Importado do Reino Unido e instalado em 1927 para comemorar o centenário da elevação de Manaus à categoria de vila, o relógio tem engrenagens de origem suíça e está montado sobre um pedestal de estilo neoclássico decorado com as inscrições em latim "Vulnerant omnes, ultima necat" — que significam: "Todas as horas ferem, a última mata". Localizado estrategicamente na entrada do setor comercial e do porto, o monumento é um dos pontos de referência mais tradicionais do centro histórico.

Caminhamos mais 250 metros até a região do Porto Público de Manaus (conhecido também Roadway). Projetado e construído por engenheiros ingleses no início do século XX para atender ao intenso fluxo de exportação da borracha, o complexo destaca-se por sua engenharia inovadora: ele conta com um sistema de cais flutuante que se adapta às drásticas variações do nível do Rio Negro entre as épocas de cheia e seca. O local é até hoje um dos principais entroncamentos de transporte de passageiros e mercadorias para todo o interior da Amazônia.
Na região do complexo portuário, destaca-se o Prédio da Antiga Alfândega de Manaus. Erguido com blocos de tijolos pré-fabricados importados da Inglaterra, o imponente edifício começou a ser construído em 1906 e foi inaugurado em 1909, no auge do Ciclo da Borracha. Projetado também por engenheiros britânicos no estilo eclético com elementos neoclássicos e medievais, o prédio abrigou a administração alfandegária e a guarda fiscal do porto por décadas. Hoje tombado pelo IPHAN como Patrimonio Histórico Nacional, permanece como um dos marcos arquitetônicos e históricos mais fascinantes da zona portuária de Manaus.

Da Antiga Alfândega, caminhamos por 600 metros para visitar outro ícone de Manaus: o Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Construído entre 1880 e 1883 e ampliado até 1906, o prédio é um exemplar marcante da arquitetura de ferro art nouveau, cuja estrutura metálica foi também pré-fabricada na Europa e inspirada no antigo mercado central de Les Halles, em Paris. Localizado às margens do Rio Negro, o mercado é um verdadeiro festival de cores, aromas e sabores.

Inicialmente, entramos na seção onde são comercializados artesanatos locais e não resistimos a comprar um souvenir para a nossa coleção. Em seguida, chegamos ao setor de peixes frescos e secos da Amazônia, onde impressiona ver o tamanho do gigantesco pirarucu e uma de suas formas mais tradicionais de comercialização: em mantas salgadas e firmemente enroladas em formato cilíndrico (lembrando um rocambole), técnica secular de conservação que o consagrou como o lendário "bacalhau da Amazônia".

Depois de nos perdermos pelas ruelas do mercado, retornamos ao hotel para um banho rápido, já que a programação da noite reservava o espetáculo "A Família do Assombro" (baseado na Família Addams), no emblemático Teatro Amazonas. Ao ingressar para o espetáculo, pudemos observar o belo interior do teatro, com seus imponentes lustres de cristal murano, pinturas refinadas e detalhes luxuosos. A apresentação durou cerca de 2 horas e 20 minutos, e o ingresso, adquirido online, custou 100 reais por pessoa.
Na saída da apresentação, aproveitamos para saborear mais uma iguaria da culinária local: o exótico tacacá, um caldo quente servido em cuia à base de tucupi (extrato da mandioca), goma, camarões secos e jambu (folha famosa pelo delicioso formigamento que causa nos lábios). Para essa experiência, optamos pela tradicional barraquinha do Tacacá da Gisela, localizada no próprio Paço de São Sebastião.

Sem dúvidas, essa foi a melhor forma de encerrar nosso roteiro por uma capital que entrou definitivamente para a lista das nossas cidades favoritas no Brasil. Vale ressaltar, contudo, que um único dia não foi suficiente para explorar tudo o que gostaríamos, o que nos obrigou a deixar de fora algumas experiências icônicas, como o fascinante MUSA (Museu da Amazônia). Mas isso serve apenas para nos dar a certeza de que, algum dia regressaremos a Manaus.


Comentários