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Ohrid, a cidade às margens do lago mais antigo da Europa

  • Foto do escritor: blogviajantee
    blogviajantee
  • 7 de abr.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 9 de abr.

Um roteiro de um dia explorando o tesouro mais precioso da Macedônia do Norte em um bate-volta saindo de Escópia.

Ohrid, também conhecida em português como Ocrida, é uma cidade que se ergue majestosa no sudoeste da Macedônia do Norte, junto à fronteira com a Albânia. Com uma população de aproximadamente 42 mil habitantes, o local é um dos raros destinos no mundo classificados pela UNESCO tanto como Patrimônio Natural (desde 1979) quanto Cultural (desde 1980). A cidade é banhada pelo Lago Ohrid, o mais antigo da Europa, famoso por suas águas límpidas, cuja visibilidade chega a alcançar os 20 metros de profundidade. Ohrid é envolta por uma lenda fascinante: diz-se que, em seu apogeu medieval, abrigava 365 igrejas, permitindo aos fiéis rezar em um templo diferente para cada dia do ano. Esse fervor religioso é aliado ao fato de a cidade ter sido o local onde São Clemente e São Naum (discípulos de Cirilo e Metódio) estabeleceram uma Escola Literária no século IX, local onde o alfabeto cirílico foi refinado e ensinado a milhares de alunos. Tais marcos consolidaram a cidade como o centro de espiritualidade do mundo eslavo, rendendo-lhe o título de a “Jerusalém dos Bálcãs”.

A história de Ohrid é uma sucessão de camadas que remontam à Antiguidade, quando era conhecida como Lychnidos, a "Cidade da Luz". Ponto estratégico na Via Egnatia, a famosa estrada romana que conectava o Adriático a Bizâncio, a cidade atingiu o ápice de sua relevância política no final do século X, ao tornar-se a capital do Primeiro Império Búlgaro sob o reinado do Czar Samuel. Durante os cinco séculos de domínio otomano, iniciados no final do século XIV, a cidade preservou sua importância religiosa, embora muitas de suas igrejas tenham sido adaptadas. Essa herança multicultural é visível na coexistência das muralhas medievais, do anfiteatro helenístico e da arquitetura otomana típica, consolidando a cidade como um testemunho vivo da evolução das civilizações nos Bálcãs. Além de sua aura mística, a cidade é mundialmente famosa pelas Pérolas de Ohrid, joias artesanais únicas produzidas a partir das escamas de peixes endêmicos do lago, cujo brilho reflete a sofisticação de um destino que combina o charme de um balneário europeu com a profundidade de um museu vivo.


Cidade de Ohrid vista da Fortaleza de Samuel
Cidade de Ohrid vista da Fortaleza de Samuel

No ínicio de abril de 2026, desembarcarmos no aeroporto da capital Escópia já durante a noite. Na manhã seguinte a nossa chegada ao país, partimos com um carro alugado, por volta das 6 horas da manhã, decididos a aproveitar cada minuto de um bate-volta até Ohrid. O trajeto de 172 quilômetros nos tomou cerca de 3 horas de condução, cruzando as paisagens serranas que serpenteiam o oeste do país e atravessam as proximidades do Parque Nacional Mavrovo. No caminho de ida, passamos por quatro praças de pedágio, desembolsando um total de 140 dinares em taxas rodoviárias (e o mesmo valor para voltar a escópia, passando pelas mesmas 4 praças de pedágio). Ao chegarmos, utilizamos a estratégia de estacionar na parte alta da cidade, no Estacionamento da Porta Superior (Паркинг Горна Порта), que é gratuito. Esta escolha foi providencial: além de ser um local de fácil acesso para quem vem da estrada principal, ele nos colocou exatamente ao lado da Porta Superior, a entrada histórica da cidadela. Dali, com a brisa fresca da manhã, pudemos iniciar nossa exploração de cima para baixo, economizando fôlego para as inúmeras escadarias e ruelas que revelam o passado medieval de Ohrid.

Logo após estacionarmos, caminhamos poucos metros para atravessar a imponente Porta Superior, uma das entradas remanescentes das antigas fortificações que protegiam a cidade. Esta estrutura faz parte das Muralhas de Ohrid, um sistema defensivo cujas fundações originais remontam ao século IV a.C., no período de Filipe II da Macedônia. No entanto, a maior parte do que vemos hoje, incluindo este portão de arco robusto feito de pedra e tijolos bizantinos, foi reconstruída no século X, durante o reinado do Czar Samuel, para cercar a colina e proteger a capital do Primeiro Império Búlgaro. Ao cruzar este limiar histórico, sentimos o peso dos séculos: as marcas nas pedras e a espessura das paredes revelam uma engenharia militar feita para resistir a cercos prolongados, servindo como o portal de entrada perfeito para a nossa jornada no tempo.

Logo após cruzarmos o arco da Porta Superior, caminhamos menos de 100 metros para encontrar o Teatro Antigo de Ohrid (Антички театар Охрид). Construído por volta de 200 a.C., ele é o único teatro do período helenístico no país. O que o torna fascinante é a sua história de preservação: durante o domínio romano, o local foi convertido em arena para lutas de gladiadores, mas com a queda do império, foi abandonado e coberto por terra, permanecendo oculto por sécullos até ser redescoberto na década de 1980. Hoje, sentar em seus degraus de pedra oferece uma vista privilegiada onde as ruínas emolduram o azul do lago ao fundo.


Teatro Antigo de Ohrid
Teatro Antigo de Ohrid

Dali, iniciamos uma subida de cerca de 500 metros em direção ao ponto mais alto da colina para visitar a Fortaleza de Samuel (Самуилова тврдина). O nome é uma homenagem ao Czar Samuel, que governou o Primeiro Império Búlgaro no final do século X e escolheu esta cidade para ser sua capital. Pagamos uma taxa de entrada de 150 dinares por pessoa para percorrer as imponentes muralhas que, embora restauradas no início dos anos 2000, seguem fielmente o traçado da época em que Samuel reconstruiu a fortificação para proteger seu reino das invasões bizantinas. O complexo contava originalmente com 18 torres e quatro portões, e caminhar por seus baluartes é uma experiência imperdível. Do topo, a visão panorâmica de 360 graus é arrebatadora: de um lado, a malha urbana de casas com telhados de barro; do outro, a vastidão do lago, onde é possível avistar as montanhas da Albânia recortando o horizonte ao fundo.

Fortaleza de Samuel
Fortaleza de Samuel

Descendo pela encosta arborizada por cerca de 400 metros, chegamos ao Sítio Arqueológico de Plaoshnik (Археолошки парк Плаошник). Este é um dos corações espirituais da região, e onde se localiza a bela Igreja de São Clemente e São Panteleimão (Црква Свети Климент и Пантелејмон). O edifício atual é uma reconstrução meticulosa sobre as fundações da Escola Literária de Ohrid, onde funcionou uma das primeiras universidades da Europa. Foi aqui que São Clemente e São Naum ensinaram o alfabeto cirílico a milhares de discípulos, consolidando a cultura eslava. Eles chegaram a Ohrid no final do século IX, após serem expulsos da Grande Morávia com a morte de seu mentor, São Metódio; a convite do Czar Boris I, o monarca do Primeiro Império Búlgaro que patrocinou a missão para fortalecer a independência religiosa e cultural de seu povo, estabeleceram-se na região para converter a população e expandir a liturgia eslava. Ambos foram reconhecidos como santos logo após suas mortes, nos séculos IX e X, devido aos milagres atribuídos às suas relíquias e ao papel fundamental na preservação do cristianismo ortodoxo e da língua búlgara antiga. No entanto, a magnitude de Plaoshnik vai além: o que mais nos impressionou foram as vastas áreas de escavação que cercam o templo, revelando batistérios paleocristãos e luxuosos pisos de mosaico bizantinos, datados entre os séculos IV e VI.


Igreja de São Clemente e São Panteleimão no Sítio Arqueológico de Plaoshnik
Igreja de São Clemente e São Panteleimão no Sítio Arqueológico de Plaoshnik

Continuamos a descida por uma trilha sinuosa entre pinheiros por cerca de 300 metros até chegarmos ao cartão-postal mais icônico do país: a Igreja de São João em Kaneo (Свети Јован Канео). Antes de descermos até o pátio, paramos em um mirante logo acima do templo; é desse ângulo elevado que se tira a foto mais famosa da Macedônia do Norte, onde a silhueta da igreja parece flutuar sobre a imensidão azul do lago. Erguida por volta de 1290, a igreja é dedicada a São João Teólogo, um dos apóstolos de Jesus e autor do quarto Evangelho. Situada sobre uma falésia que avança dramaticamente sobre as águas, sua arquitetura é uma síntese perfeita de influências armênias e bizantinas. O silêncio do lugar, interrompido apenas pelo som das ondas batendo nas rochas lá embaixo, explica por que este ponto isolado foi escolhido para a contemplação e a oração há tantos séculos. É, sem dúvida, o cenário mais fotogênico de todos os Bálcãs.


Igreja de São João em Kaneo
Igreja de São João em Kaneo

A partir de Kaneo, em vez de subirmos a colina novamente, descemos por 500 metros até a base do penhasco para percorrer a Ponte dos Desejos (Мостот на желби). Trata-se de uma passarela de madeira suspensa sobre o próprio Lago Ohrid, que serpenteia junto às rochas e nos conduz suavemente até a parte baixa da cidade. É um passeio relaxante, onde a transparência da água e os pequenos barcos ancorados criam um cenário de balneário mediterrâneo.


Ponte dos Desejos
Ponte dos Desejos

Ao final da passarela, mergulhamos novamente nas ruelas de pedra do centro histórico e caminhamos cerca de 300 metros até a Igreja de Santa Sofia (Црква Св. Софија). Construída no século XI, esta joia arquitetônica foi a sede do Arcebispado de Ohrid por séculos e, durante o período otomano, foi convertida em mesquita. O que torna seu interior verdadeiramente magnífico é a coleção de afrescos medievais, considerados alguns dos mais importantes do mundo. Curiosamente, essas pinturas foram preservadas de forma impecável justamente por terem sido cobertas com cal pelos otomanos; ao serem restauradas no século XX, revelaram cores e detalhes que parecem ter parado no tempo. O ingresso ao interior da igreja custou 150 dinares por pessoa.


Igreja de Santa Sofia
Igreja de Santa Sofia

Depois de conhecer a igreja, paramos para almoçar na Pizzeria Via Sacra, logo ao lado, onde experimentamos dois pratos tradicionais da Macedônia do Norte: o Selsko Meso, um ensopado de carne de porco preparado em panela de barro, e o Pastrmajlija, uma espécie de pizza oval.


Selsko Meso e Pastrmajlija na Pizzeria Via Sacra
Selsko Meso e Pastrmajlija na Pizzeria Via Sacra

Dali, seguimos em direção ao Antigo Bazar (Стара чаршија), o coração comercial e pulsante da cidade. Diferente de outros mercados otomanos labirínticos, o de Ohrid se estende por uma rua principal charmosa, onde o aroma do café turco se mistura ao brilho das vitrines que exibem as famosas Pérolas de Ohrid. O que torna essas joias únicas no mundo é o seu processo de fabricação, um segredo guardado por apenas duas famílias locais há gerações: as pérolas não são extraídas de ostras, mas sim produzidas artesanalmente a partir de camadas de emulsão feitas com as escamas do Plašica, um pequeno peixe endêmico do lago.


Lojas de Pérolas de Ohrid
Lojas de Pérolas de Ohrid

O bazar nos conduziu naturalmente até a orla principal, onde o ritmo da cidade se torna mais vibrante com seus cafés e o movimento do porto. Ali, encontramos os imponentes dois importantes monumentos, a Estátua de São Clemente (Споменик на Св. Климент Охридски) e a Estátua de São Naum, o Taumaturgo (Споменик на Св. Наум Охридски), homenagens aos santos que foram os pilares da alfabetização e espiritualidade eslava. As estátuas, ambas inauguradas em 2006 e esculpidas pelo renomado artista macedônio Gligor Čemerski, estão posicionadas estrategicamente e parecem vigiar as águas e dar as boas-vindas aos navegantes. Com o sol de abril começando a baixar, iniciamos a subida final pelas ruelas laterais de volta à Porta Superior para recuperar nosso carro no estacionamento e seguir para a última parada do dia.


Estátua de São Clemente
Estátua de São Clemente
Estátua de São Naum
Estátua de São Naum

Deixamos o centro de Ohrid e dirigimos por cerca de 16 quilômetros (aproximadamente 20 minutos) pela cênica estrada que margeia o lago em direção ao sul, até chegarmos ao Museu da Baía dos Ossos (Музеј на вода Залив на коските).


Lado Ohrid a beira da estrada
Lado Ohrid a beira da estrada

O museu é uma reconstituição autêntica de um assentamento pré-histórico de palafitas, cujas fundações originais submersas datam de 1200 a.C., durante a Idade do Bronze. Estacionamos nosso carro no estacionamento gratuito do museu, que também funciona como um mirante na encosta acima da baía. Dali, pudemos contemplar a vila flutuando sobre as águas azul-turquesa, um contraste fascinante entre a engenhosidade ancestral e a beleza natural intocada da Macedônia do Norte.


Museu da Baía dos Ossos
Museu da Baía dos Ossos

Ao custo de 150 dinares macedônios por pessoa, pudemos ingressar no museu atravessando a ponte de madeira para chegar às peculiares casas feitas de palha e argila. Este local foi outrora habitado pelos Brigianos (Bryges), uma tribo paleo-balcânica de agricultores, criadores de gado e habilidosos artesãos que escolheram viver sobre as águas para se protegerem de predadores e tribos hostis. No interior das habitações, a disposição de peles e ferramentas de cerâmica reconstrói o cotidiano desse povo, cujo legado foi preservado sob o leito do lago por milênios até a descoberta dos artefatos e dos milhares de ossos de animais que dão nome ao local.


Museu da Baía dos Ossos
Museu da Baía dos Ossos

Com essa última imagem gravada na memória, iniciamos nossa viagem de retorno a Escópia, com a sensação de ter desvendado um dos tesouros mais preciosos e multifacetados da Europa.

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