Pristina, a capital do Kosovo
- blogviajantee

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Um roteiro de meio dia pela capital mais jovem e efervescente dos Bálcãs.
Localizada na região nordeste do país, Pristina (Prishtina) é o coração administrativo e econômico Kosovo. Com uma população estimada em cerca de 220 mil habitantes, a cidade pulsa com uma energia contagiante, reflexo direto de ter uma das populações mais jovens de toda a Europa. Diferente de outras capitais europeias monumentais, Pristina não se destaca por uma estética clássica ou uniforme; sua beleza reside no caos fascinante de sua arquitetura, onde edifícios brutais da era comunista convivem com modernos prédios espelhados e mesquitas otomanas centenárias. É uma cidade feita para ser caminhada e sentida, famosa mundialmente por sua cultura de cafés: em Pristina, o café não é apenas uma bebida, mas um ritual social que ocupa as calçadas durante todo o dia, servindo o que muitos consideram o melhor macchiato fora da Itália.
A história de Pristina é uma sucessão de camadas que remontam à Antiguidade, quando a região era habitada pelos dardânios e, posteriormente, tornou-se um importante centro romano sob o nome de Vicianum. No entanto, foi durante o Império Otomano, a partir do século XIV, que a cidade floresceu como um centro comercial estratégico na rota entre Constantinopla e a Europa Central. Com o declínio otomano e as Guerras Balcânicas, Pristina passou para o controle do Reino da Sérvia e, mais tarde, da Iugoslávia, transformando-se radicalmente sob o regime de Tito, que demoliu parte do antigo bazar para dar lugar a amplas avenidas e estruturas de concreto características do socialismo. O capítulo mais dramático de sua história recente ocorreu no final da década de 1990, com a Guerra do Kosovo, que deixou cicatrizes profundas na memória da cidade. Desde a declaração de independência em 2008, Pristina vive um processo acelerado de reinvenção, consolidando-se como um símbolo de resiliência e de um futuro que olha ansiosamente para a integração europeia.

No final de março de 2026, partimos de carro alugado para um trajeto de aproximadamente 95 quilômetros saindo de Escópia rumo a Pristina. A viagem pela moderna rodovia R6 foi rápida, levando menos de 2 horas, incluindo os trâmites imigratórios na fronteira entre Blace (Macedônia do Norte) e Hani i Elezit (Kosovo). Ao chegarmos à capital do Kosovo, por volta das 8 da manhã, optamos pela praticidade do 038 Parking Center, um estacionamento privado e subterrâneo, localizado estrategicamente no centro da cidade, e com um custo de apenas 1 euro por hora.
Ao sairmos do 038 Parking Center, já demos de cara com a Catedral de Madre Teresa (Katedralja e Shën Terezës). Construída a partir de 2007 e oficialmente consagrada em 2017, esta catedral católica é um dos maiores edifícios da cidade com cerca de 70 metros de altura, e carrega um forte simbolismo de tolerância religiosa, já que o Kosovo possui maioria muçulmana. O templo é dedicado a Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, mundialmente conhecida como Madre Teresa de Calcutá, a missionária ganhadora do Nobel da Paz que, embora tenha nascido na atual Escópia, era de etnia albanesa. No interior, o que mais nos impressionou foram os vitrais coloridos, que retratam a vida da santa e outras figuras históricas albanesas, simbolizando a identidade compartilhada de um povo, independentemente da fé.

A apenas 100 metros dali, já dentro do campus universitário, deparamo-nos com a Biblioteca Nacional do Kosovo (Biblioteka Kombëtare e Kosovës). Construída entre 1974 e 1982, esta obra do arquiteto croata Andrija Mutnjaković é, provavelmente, o mais famoso ponto turístico do país. Composta por 99 cúpulas de diferentes tamanhos e revestida por uma rede metálica que remete a uma armadura, a estrutura divide opiniões entre o "genialmente brutalista" e o "estranho". Alguns ousam dizer que este é o "edifício mais feio do mundo", porém, para mim, ele simboliza a identidade complexa de Pristina: uma mistura de tradição (as cúpulas lembram os chapéus tradicionais albaneses, os plis) e modernidade audaciosa.

A poucos metros da biblioteca, encontramos a Igreja de Cristo Salvador (Katedralja e Shpëtimtarit Krisht). Com a construção iniciada em 1992, durante o regime de Slobodan Milošević, que governou a Sérvia de 1989 a 1997 e a Iugoslávia de 1997 a 2000, o objetivo era erguer um imponente templo ortodoxo sérvio que simbolizasse a soberania de Belgrado sobre o território. Milošević foi uma figura central e sinistra, cujo governo nacionalista reprimiu duramente a maioria étnica albanesa, levando a um período sombrio de apartheid institucional, perseguições e episódios de tortura contra os kosovares. Com a eclosão da Guerra do Kosovo em 1999, as obras foram abandonadas. Hoje, a estrutura de tijolos permanece inacabada e envolta em uma disputa jurídica entre a Igreja Ortodoxa e a Universidade de Pristina; para os locais, ela é muito mais que um edifício: é um símbolo funcional da opressão de um regime que tentou apagar a identidade e a autonomia de seu povo.

Dali, seguimos por cerca de 600 metros até o Monumento NEWBORN (Monumenti NEWBORN), localizado em frente ao Palácio da Juventude e Esportes. Inaugurado no dia da declaração de independência, em 17 de fevereiro de 2008, o letreiro é um organismo vivo: todos os anos ele é repintado com uma nova temática que reflete o momento político ou social do país. Tirar uma foto junto às letras de metal é um ritual de passagem para qualquer visitante, uma forma de celebrar o nascimento da nação mais jovem da Europa.

Cruzamos então para o Avenida Madre Teresa (Bulevardi Nënë Tereza), a artéria de pedestres que é o verdadeiro palco da cultura de cafés de Pristina. Ao longo desta avenida arborizada de aproximadamente 600 metros, passamos pela Estátua de Madre Teresa (Shtatorja e Nënë Terezës). Instalada em 2002, esta homenagem singela à missionária é uma obra do renomado escultor albanês Luan Mulliqi. Enquanto caminhamos, observamos o fluxo incessante de locais desfrutando de seus macchiatos nas inúmeras mesas que ocupam as calçadas, criando uma atmosfera que é o coração pulsante da capital.

Ao final da avenida, chegamos à Praça do Governo da República do Kosovo (Sheshi i Qeverisë), também conhecida como Praça Skanderberg (Sheshi Skënderbeu), onde a modernidade das instituições estatais encontra a história profunda da região. Ali, destaca-se a imponente Estátua de Skanderbeg (Shtatorja e Gjergj Kastriotit Skënderbeut), o herói nacional albanês que liderou a resistência contra o Império Otomano no século XV. Inaugurada em 2001, esta obra é uma réplica do monumento original do escultor Janaq Paço, localizada na cidade de Krujë, na Albânia. Sua instalação foi motivada por um desejo profundo de afirmar a identidade cultural local e fortalecer a conexão histórica com a Albânia. A figura montada a cavalo, com a espada erguida, funciona como um lembrete constante da herança guerreira e da busca pela liberdade que permeia a identidade do povo até os dias de hoje.
Ao lado do pedestal, um monumento em tons de marrom e bronze exibe o icônico símbolo da cabeça de cabra, um emblema pessoal de Skanderbeg que também coroa seu elmo. Este brasão remete à lendária "Estratégia das Cabras", na qual, durante um cerco noturno das tropas otomanas, o herói teria ordenado que tochas fossem amarradas aos chifres de um rebanho para criar a ilusão de um exército maior, uma tática astuta que o ajudou a vencer a batalha contra todas as probabilidades.

Além disso, na praça também está a Estátua de Ibrahim Rugova (Shtatorja e Ibrahim Rugovës), que foi o primeiro presidente do Kosovo, eleito democraticamente ainda durante o período em que o país estava sob administração da ONU. Ele é considerado por isso o "Pai da Nação", tendo liderado um movimento de resistência pacífica que lhe rendeu o apelido de "Gandhi dos Bálcãs". A estátua é uma obra inaugurada no ano de 2013, criada pelo artista albanês Julian Muqollari. Com cerca de quatro metros de altura, o monumento captura a figura de Rugova com seu característico lenço no pescoço, simbolizando a transição diplomática e a busca pela soberania que definiu sua trajetória política.

A partir da praça, a paisagem urbana muda drasticamente ao entrarmos no núcleo histórico otomano. A primeira parada foi a Mesquita Carshi (Xhamia e Çarshisë), a mais antiga da cidade, cuja construção teve início logo após a Batalha do Kosovo, por volta de 1389, sob as ordens do Sultão Bayezid I. O nome Carshi significa "Bazar", uma referência à sua localização no antigo centro comercial que foi demolido na era iugoslava. Uma curiosidade marcante é o seu minarete: ele é feito inteiramente de pedra, o que é uma raridade arquitetônica e um dos poucos elementos que sobreviveu intacto por mais de seis séculos, resistindo a guerras e terremotos.

A poucos passos dali, ergue-se a imponente Grande Mesquita (Xhamia e Madhe), também conhecida como Mesquita Sultão Mehmet Fatih (Xhamia e Sulltan Mehmet Fatihut). Finalizada em 1461 por ordem do próprio Sultão Mehmet II (conhecido como "O Conquistador" por ter tomado Constantinopla), ela é carinhosamente chamada pelos locais de Xhamia e Mbretit, ou "Mesquita do Rei". Entramos no pátio para admirar a grandiosidade de sua cúpula, considerada uma das maiores e mais avançadas da região para a época. Uma curiosidade histórica fascinante é que, durante o breve domínio austríaco no final do século XVII, esta mesquita foi convertida em uma igreja católica, voltando a ser um templo islâmico logo após a retomada otomana.

Ao lado, avistamos a Torre do Relógio (Sahat Kulla), uma estrutura imponente com 26 metros de altura que remonta ao século XIX. Erguida por ordem de Jashar Pasha, o mesmo governador que construiu a mesquita vizinha, a torre servia a um propósito prático e espiritual: indicar os horários exatos das orações e o fechamento do comércio no bazar. Uma curiosidade fascinante sobre esta torre é o seu sino original: ele foi trazido da Moldávia e possuía uma inscrição datada de 1764. Infelizmente, o sino original foi roubado em 2001 e jamais foi recuperado, em um dos episódios mais frustrantes do patrimônio histórico do Kosovo. Como alguém conseguiria roubar um sino de meia tonelada do alto de uma torre de mais de 20 metros de altura? O sino foi posteriormente substituído por um sistema eletrônico que mantém viva a tradição de marcar o tempo no coração da Pristina histórica.

A Torre do Relógio marcou o encerramento do nosso roteiro por Pristina. Com a chegada do meio-dia, decidimos retornar à Avenida Madre Teresa (Bulevardi Nënë Tereza) para desfrutar de um almoço local e então buscar o carro para seguir viagem. Pristina nos despediu com sua mistura fascinante de resiliência e hospitalidade, deixando o cenário perfeitamente preparado para a próxima etapa da nossa jornada: a histórica e charmosa cidade de Prizren.


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