Prizren, a mais bela cidade do Kosovo
- blogviajantee

- há 3 dias
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Um roteiro de meio dia pela capital cultural e histórica do Kosovo.
Localizada no sopé das montanhas Sharri, no sul do país e próxima à fronteira com a Albânia, Prizren é amplamente considerada a capital cultural e histórica do Kosovo. Com uma população de aproximadamente 180 mil habitantes, a cidade oferece um contraste encantador com o ritmo frenético de Pristina; aqui, a pressa dá lugar ao som relaxante do Rio Lumbardhi e ao bater de passos sobre o calçamento de pedra secular. Prizren é o maior exemplo de multiculturalismo no país, sendo um local onde o albanês, o turco e o bósnio convivem harmoniosamente no dia a dia. Sua beleza não reside no caos moderno, mas na preservação de um cenário de conto de fadas: um mar de telhados vermelhos, minaretes elegantes e igrejas medievais, tudo vigiado por uma imponente fortaleza que domina o horizonte. É uma cidade feita para ser contemplada sem pressa, onde cada esquina revela um pouco da alma balcânica.
A história de Prizren é um mosaico de impérios que deixaram marcas profundas em sua arquitetura. Suas raízes remontam à era romana, quando era conhecida como Theranda, mas foi sob o domínio bizantino e, posteriormente, no Império Otomano (a partir do século XV), que a cidade atingiu seu apogeu como um próspero centro comercial e administrativo. Ao contrário da capital, Prizren conseguiu preservar grande parte de seu núcleo otomano das demolições da era iugoslava, mantendo vivo o traçado de seu antigo bazar. No século XIX, a cidade tornou-se o epicentro do renascimento nacional albanês com a formação da Liga de Prizren, um movimento político crucial para a identidade da região. Apesar de ter enfrentado períodos de tensão durante os conflitos dos Bálcãs, a cidade hoje se destaca como um símbolo de coexistência e preservação, sendo o palco de festivais internacionais de cinema e arte que celebram seu espírito criativo e resiliente.
Após visitarmos a capital, Pristina, durante a manhã, iniciamos, por volta das 13h30, o percurso de aproximadamente 85 quilômetros até Prizren. A viagem foi extremamente tranquila pela rodovia R7, uma via de excelente qualidade que serpenteia entre montanhas e vales, permitindo completar o trajeto em pouco mais de uma hora. Ao chegarmos ao destino, no entanto, enfrentamos um intenso congestionamento e encontramos dificuldade para estacionar próximo ao centro histórico. Após circularmos pela área algumas vezes e passarmos por diversos estacionamentos lotados, finalmente conseguimos deixar nosso carro alugado no Parking MONI, situado a poucos passos da zona histórica, pelo valor de apenas 6 euros por 3 horas.
Com o carro estacionado, optamos por seguir imediatamente ao ponto mais movimentado da cidade, caminhando por cerca de 150 metros até a Antiga Ponte de Pedra (Ura e Gurit), que atravessa o Rio Lumbardhi. Construída entre o final do século XV e o início do século XVI, a ponte possui três arcos e é um símbolo da resiliência de Prizren. Em 1979, uma enchente catastrófica destruiu quase completamente a estrutura original, mas, devido ao seu imenso valor histórico, ela foi meticulosamente reconstruída em 1982, utilizando as mesmas pedras recuperadas do leito do rio.

Da ponte, é possível observar, no topo da colina que margeia a cidade, a Fortaleza de Prizren (Kalaja e Prizrenit). Embora suas fundações remontem à Idade do Bronze, a fase de expansão medieval começou em 1019, sob o comando do Imperador Bizantino Basílio II, que consolidou a fortificação após derrotar o Primeiro Império Búlgaro. Ao longo dos séculos, entre 1019 e 1864, a fortaleza foi o palco central de inúmeras batalhas, servindo como baluarte defensivo durante as invasões otomanas no século XV e como ponto estratégico nas revoltas locais contra o domínio imperial no século XIX.

Infelizmente, para visitar a fortaleza, é necessário encarar uma subida íngreme e, como o meio da tarde se aproximava, avaliamos que não seria a melhor estratégia subir naquele momento. Optamos, então, por sentar na Praça Shadervan (Sheshi Shadërvan), localizada a apenas 20 metros após a Ponte de Pedra. Esta praça, cujo nome deriva da palavra turca para "fonte", é o centro social de Prizren desde o período otomano. Em seu centro, encontra-se a icônica fonte de água potável e, ao redor, dezenas de bares e cafés. Não perdemos tempo e escolhemos um desses estabelecimentos para degustar a Peja, a cerveja local mais famosa do Kosovo.
Depois de descansarmos na praça, caminhamos apenas 100 metros para visitar a majestosa Mesquita Sinan Pasha (Xhamia e Sinan Pashës). Finalizada em 1615 por ordem de Sofi Sinan Pasha, um importante estadista otomano de origem albanesa que serviu como Beilerbei na Bósnia e na Rumélia, a mesquita é o marco visual mais forte da cidade. Um detalhe histórico fascinante é que sua construção utilizou pedras retiradas das ruínas do Mosteiro dos Santos Arcanjos, um complexo fundado pelo Imperador sérvio Estêvão Dušan entre 1343 e 1352 para ser seu local de sepultamento. O mosteiro, que ficava a poucos quilômetros da cidade, era uma das maiores obras da arquitetura sérvia medieval antes de ser abandonado e desmantelado após a chegada dos otomanos. Hoje, o minarete de 43 metros de altura da mesquita e suas cúpulas imponentes dominam o horizonte.

Após mais 350 metros de caminhada, cruzamos novamente a Ponte de Pedra até chegar ao Hammam de Prizren, também conhecido como Hammam de Gazi Mehmed Pasha (Hamami i Gazi Mehmed Pashës). Construído pelo comandante otomano Gazi Mehmed Pasha entre 1563 e 1574, este banho turco é um dos maiores dos Bálcãs.

Nossa última parada foi na Igreja de Nossa Senhora de Ljeviš (Kisha e Shën Premtes / Crkva Bogorodica Ljeviška), alcançada após 500 metros de caminhada partindo do Hammam. Esta joia da arquitetura ortodoxa sérvia em estilo bizantino foi construída entre 1306 e 1309 sobre as fundações de uma basílica do século IX. Considerada o monumento de maior importância histórica da cidade, foi inscrita na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2006, integrando o grupo dos "Monumentos Medievais no Kosovo". Famosa por seus raros afrescos, a igreja permanece cercada por arame farpado, um lembrete dos violentos distúrbios de março de 2004. Durante aquela onda de violência étnica, o templo foi alvo de ataques e incêndios que danificaram severamente seu interior, o que levou a UNESCO a incluí-la também na lista do Patrimônio Mundial em Perigo.

Era o momento de concluir nosso roteiro, levando conosco as imagens de uma cidade que soube preservar sua alma através dos séculos. Retornamos ao estacionamento (cerca de 650 metros de caminhada a partir da igreja) por volta das 18h. A viagem de volta a Escópia levou cerca de 1 hora e 45 minutos pela rodovia R6, encerrando um dia intenso que nos permitiu desvendar as complexas facetas da nação mais jovem da Europa.


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