Dhigurah, a ilha reduto dos gigantes selvagens do mar
- blogviajantee
- há 2 dias
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Um roteiro de 3 dias e meio por Dhigurah, uma joia alongada do Atol de Ari Sul.
Localizada no Atol de Ari Sul, a cerca de 100 quilômetros de Malé, Dhigurah é um verdadeiro santuário natural. Diferente da pequena e oval Fulidhoo, Dhigurah impressiona pelo seu formato alongado, estendendo-se por quase 4 quilômetros de floresta densa e praias infinitas, mas apenas 300 metros de largura. Com uma comunidade vibrante e acolhedora de aproximadamente 600 habitantes, a ilha é famosa mundialmente por ser o melhor ponto das Maldivas para o avistamento de Tubarões Baleia e Arraias Manta. Além de sua beleza selvagem, a ilha possui em uma de suas extremidades um espetacular banco de areia (sandbank), que se prolonga oceano adentro por centenas de metros. Aqui, o ritmo é ditado pela natureza; as ruas de areia convidam a caminhadas longas sob a sombra dos coqueiros, sempre com o som do mar ao fundo.

Nossa jornada para chegar a Dhigurah começou com uma partida de Fulidhoo às 6h15 em uma lancha rápida, chegando ao píer do aeroporto de Malé uma hora depois (40 dólares americanos por pessoa). Após aguardarmos até as 11 horas, embarcamos em uma nova lancha (60 dólares americanos por pessoa), em uma navegação de aproximadamente duas horas pelo mar aberto que nos recompensou com a visão da silhueta estreita da ilha surgindo no horizonte. Ao desembarcarmos no píer, ao norte da ilha, fomos recebidos pela equipe do Hotel Horizon Dhigurah, nossa acomodação na ilha, que nos levou até o hotel para o check in. Ficamos hospedados ali mesmo, na parte norte, onde está a grande maioria das acomodações, comércios e restaurantes. Como a ilha é bastante extensa, o que exigiria longas caminhadas para alcançar a área da Bikini Beach, situada do centro em direção ao sul, optamos pelo aluguel de uma scooter por 20 dólares americanos o dia, garantindo-nos total mobilidade e praticidade.

A escolha de Dhigurah como nosso segundo destino nas Maldivas foi motivada pelo sonho de ver de perto os maiores peixes do mundo e as gigantescas mantas; por estar inserida em uma área marinha protegida, os trajetos para encontrar os animais são curtos, tornando a experiência muito mais proveitosa.

Após o check-in e o almoço, dedicamos nossa primeira tarde a explorar a imensidão da ilha, começando pelo norte em busca de souvenirs e seguindo com nossa scooter para o sul. Na parte leste, encontramos a Bikini Beach, onde aproveitamos para registrar as primeiras fotos de um cenário composto por infinitas palmeiras, areia branca fofa e águas cristalinas, o que me permite dizer que Dhigurah é um dos locais mais surreais que já conheci, superando em beleza até mesmo a ilha de Fulidhoo.


Continuando nossa rota rumo ao sul, logo avistamos a "Famosa Palmeira" que, com seu tronco curvado projetando-se quase sobre o mar, cria o cenário perfeito para uma foto digna de Instagram; como bons turistas, não resistimos ao clichê e garantimos nosso registro equilibrados sobre o tronco.


Passamos o final do dia por ali mesmo, observando o maravilhoso pôr do sol de Dhigurah, antes de retornarmos ao norte para jantar e voltar ao hotel.

No segundo dia, a expectativa estava altíssima para o nosso primeiro tour de barco, o "Caçadores de Tubarões, a Odisseia do Tubarão Baleia", que custou 90 dólares americanos por pessoa e foi reservado junto ao nosso hotel. Mas antes do tour, degustamos de um delicioso café da manhã em nosso hotel. O prato escolhido foi o Mas Huni, tradicional da culinária das Maldivas, que consiste em uma mistura picada de atum fresco, coco ralado, cebola e pimenta, tudo temperado com suco de limão.

Partimos então do píer às 8h15 em um grupo compartilhado de 20 passageiros, acompanhados por seis tripulantes e pelo guia do nosso hotel, o Ahusan. Após uma hora e meia de navegação, fizemos a primeira parada com o objetivo de ver Arraias Mantas; embora não tenhamos obtido êxito em encontrá-las, a pausa compensou pela observação de um grupo de pequenas lulas nadando próximo à superfície.

Navegamos por mais 30 minutos até que as experientes guias Christine e Anna avistaram um Tubarão Baleia e nos alertaram para pularmos na água. Com outros barcos se aproximando, acredito que éramos umas cem pessoas na água. O gigante, que deveria ter uns 6 metros de comprimento e pesar cerca de duas toneladas, passou nadando calmamente. Equipados com snorkel e nadadeiras, conseguimos acompanhar essa criatura majestosa por cerca de um minuto antes de ela sumir oceano adentro. Mesmo que por pouco tempo, poder nadar com esse gigante selvagem foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, algo verdadeiramente cinematográfico.

O Tubarão Baleia (Rhincodon typus) é o maior peixe do mundo, chegando a 13 metros de comprimento, e possui um padrão de manchas que funciona como uma digital única. Apesar do seu tamanho colossal, ele é um gigante gentil que se alimenta exclusivamente de plâncton e pequenos organismos através da filtração, o que torna o mergulho ao seu lado uma experiência segura e pacífica.

O tour ainda reservava encontros marcantes: navegamos até os arredores da charmosa e privada Ilha de Mirihi, que abriga o luxuoso Mirihi Island Resort. Por lá, pudemos explorar um recife de corais fascinante e encontrar diversos peixes coloridos. O grande destaque foi o Peixe Esquilo (Sargocentron spiniferum), que possui uma cor avermelhada superintensa. Uma curiosidade incrível é que, embora o vermelho pareça chamativo, no fundo do mar ele serve como camuflagem! Como a luz vermelha não penetra bem na água, esse tom faz o peixe parecer totalmente preto e invisível dentro das frestas dos corais, protegendo-o dos predadores.

Outro morador ilustre do recife que cruzou o nosso caminho foi o Peixe Papagaio Margarida (Chlorurus sordidus), com sua cor verde-azulada incrivelmente vibrante. Além da beleza, ver esse peixinho de perto é fascinante por conta de um segredo ecológico: com seu bico forte, ele raspa os corais para se alimentar e, após digeri-los, elimina uma areia branca finíssima. Cientistas estimam que a maior parte daquelas praias paradisíacas e perfeitas das Maldivas é, na verdade, produzida por

Também avistamos uma linda Tartaruga de Pente (Eretmochelys imbricata) nadando calmamente. Infelizmente, por estar muito ao fundo, não consegui registrá-la com nitidez.

Após 45 minutos de exploração, ainda avistei um animal que acredito se tratar de alguma espécie de moréia, escondida por entre um coral. O passeio durou 5 horas e retornamos a Dhigurah por volta das 13h.

Já em Dhigurah, primeiro almoçamos e depois, com nossa scooter, nos deslocamos até um local conhecido como Recife das Tartarugas (Turtle Reef) para fazer snorkel. Apesar do nome, não encontramos nenhuma tartaruga por lá, mas sim uma bela Moréia Zebra (Gymnomuraena zebra), que recebe esse nome devido às listras em seu corpo.

Outro encontro interessante no recife foi um lindo grupo de Peixes Donzela de Cauda Branca (Dascyllus aruanus), se escondendo por entre um coral, o que foi uma excelente forma de concluir mais um dia na ilha.

O dia seguinte de nosso roteiro foi dedicado ao tour “Ray of Wonders: Manta Magic Adventure”. O tour, que nos custou 75 dólares americanos por pessoa, se iniciou às 7h30 da manhã e teve uma duração de 4 horas, tendo sido reservado previamente com o auxílio do nosso hotel em Dhigurah. Foi um passeio compartilhado, realizado em um barco com 8 passageiros, além do motorista, dos dois guias do tour e do Mippo, o guia do nosso hotel.
Após uma navegação de aproximadamente 45 minutos, alcançamos o ponto onde as mantas se reúnem para a alimentação. Próximo a Dhigurah, a espécie predominante é a Arraia Manta de Recife (Mobula alfredi). Curiosamente, este arquipélago abriga a maior população mundial desses animais, que podem atingir impressionantes 5 metros de envergadura alimentando-se exclusivamente de plâncton.

Tivemos o privilégio de observar dois exemplares magníficos: o primeiro, menor e nadando próximo à superfície, possuía cerca de 3,5 metros de envergadura e pesava mais de meia tonelada; o segundo, avistado ao fundo, era ainda maior, com aproximadamente 4 metros e cerca de uma tonelada. Em um verdadeiro balé subaquático, elas deslizavam com uma elegância hipnotizante.


Depois de um longo tempo observando essas dançarinas gigantes do oceano, navegamos até o recife de corais próximo a Ilha privada de Machchafishi. Esse recife foi ainda mais vivo e vibrante que o do tour do dia anterior. Logo de cara avistamos alguns Peixes Corneta Azul (Fistularia commersonii). Esse peculiar peixe de corpo fino e alongado se utiliza do seu focinho tubular como uma poderosa bomba de sucção, aproximando-se silenciosamente para “aspirar” pequenos peixes e crustáceos.

O segundo achado foi um dos pontos altos desse recife de corais: dois Tubarões Lixa (Ginglymostoma cirratum) descansando preguiçosamente em uma fenda de coral, empilhados um sobre o outro.

Além disso vimos uma pequenina Estrela do Mar, cuja espécie não consegui identificar, repousando sobre um coral.

O lindíssimo Peixe Lábio Doce Oriental (Plectorhinchus vitta-tus) com seus lábios carnudos e o padrão de listras horizontais contrastantes.

Um Pepino do Mar de Graeffe (Pearsonothuria graeffei), que funciona como um verdadeiro "faxineiro" do oceano, sendo essencial para manter os recifes saudáveis. Ele passa o dia limpando o fundo do mar e reciclando o que encontra, garantindo que o ambiente continue equilibrado e limpo para as outras espécies.

Por fim, um Tubarão de Ponta Preta de Recife (Carcharhinus melanopterus), simplesmente lindo.

Retornamos a Dhigurah por volta das 11h30 e, após o almoço, aproveitamos para relaxar no hotel. Assim que o sol baixou, por volta das 15h30, partimos de scooter em direção ao extremo sul da ilha. Seguimos até o final da estrada principal, onde estacionamos a scooter e iniciamos uma caminhada de aproximadamente 15 minutos.

O destino era o icônico Banco de Areia de Dhigurah, uma extensão de areia branca que avança por centenas de metros mar adentro. Ao atravessá-lo, fomos cercados por um cenário deslumbrante, onde o azul do oceano exibia degradês impressionantes criados pelas variações de profundidade. Ao atingirmos a extremidade final da faixa de areia, pudemos avistar com clareza a ilha vizinha do Atol de Ari do Sul: Dhidhdhoofinolhu. Ao contrário da atmosfera local de Dhigurah, trata-se de uma ilha privativa que abriga o exclusivo resort de luxo LUX South Ari Atoll.

Em nossa última manhã em Dhigurah, despertamos com o sol ainda baixo e retornamos ao Recife das Tartarugas, decididos a explorá-lo ao máximo. Entre a vibrante vida marinha, o encontro mais marcante foi com o exótico Peixe Morcego (Platax orbicularis). Com seu corpo alto e achatado, ele é mestre na camuflagem e possui um nado elegante e quase estático, o que lhe confere um ar misterioso e fascinante sob as águas.

Ainda demos a demos a sorte de cruzar com um elegante casal de Peixes Borboleta Melão (Chaetodon trifasciatus). O mais curioso sobre essa espécie é que eles são extremamente românticos: formam casais monogâmicos para a vida toda.

Depois de horas de snorkel, simplesmente sentamos na areia branca, observando o movimento calmo das águas cristalinas. Deixamos a mente revisitar cada memória construída naquela ilha mágica. Foi o instante perfeito para absorver a energia do lugar e concluir nossa visita com o coração transbordando gratidão. Despedimo-nos daquele cenário surreal agradecendo, acima de tudo, pelo privilégio dos encontros inesquecíveis com os gigantes selvagens do mar, levando conosco a certeza de que nos lembraremos de Dhigurah pelo resto de nossas vidas.
Às 13h, embarcamos em uma lancha rápida (speedboat) para nos despedirmos de Dhigurah em direção à capital Malé. O trajeto custou 60 dólares americanos por pessoa e foi o encerramento perfeito para essa etapa da viagem. Mas não se preocupe, Malé merece um capítulo à parte e contarei todos os detalhes sobre a capital em um próximo post!
