Fulidhoo, a ilha de refúgio das Arraias Chicote Rosa e dos Tubarões Lixa
- blogviajantee

- há 2 dias
- 11 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Um roteiro de 3 dias por uma pequena, porém paradisiaca ilha do Atol de Vaavu.
Localizada na porção central das Maldivas, ligeiramente a sudeste da capital Malé, Fulidhoo é uma das ilhas locais habitadas mais encantadoras do Atol de Vaavu. Com uma população pequena e acolhedora de aproximadamente 400 habitantes, a ilha preserva uma atmosfera de tranquilidade absoluta que contrasta com o agito dos grandes resorts. Com pouco mais de 700 metros de extensão, ela é bastante famosa por ser o refúgio de Arraias Chicote Rosa e Tubarões Lixa, que frequentam suas águas rasas e cristalinas. Além da vida marinha impressionante, Fulidhoo se destaca por suas impressionantes praias de areaia branca, com um mar em degradê de turquesa que parece pintado à mão. A pequena vila na ilha de Fulidhoo é bastante pacata, e não existem carros no local, sendo o transporte feito apenas por carrinhos elétricos, bicicletas, ou caminhando por suas poucas ruas de areia.

Após desembarcarmos no aeroporto da capital, Malé, deixamos o terminal principal e nos dirigimos ao píer de onde partem as lanchas rápidas (speedboats) rumo às diversas ilhas do arquipélago. Pontualmente às 10 horas, embarcamos em nossa lancha, reservada previamente de forma on-line com o suporte do nosso hotel em Fulidhoo ao custo de 40 dólares americanos por pessoa. Após pouco mais de uma hora de navegação, avistamos o pequeno píer da ilha, e ao desembarcar, já nos esperava um carrinho elétrico, para percorrer os menos de 300 metros até nossa hospedagem pelas próximas três noites, o Royal Villa Fulidhoo.

Nossa escolha por Fulidhoo foi estratégica. Além do desejo evidente de relaxar em praias paradisíacas, nosso grande objetivo nas Maldivas era observar a rica vida marinha que habita as águas deste país tão peculiar. O Atol de Vaavu é famoso por ser o habitat de um número imenso de Arraias Chicote Rosa e Tubarões Lixa; por isso, os principais passeios de observação ocorrem nesta região. Ao pernoitar em Fulidhoo, que está situada exatamente neste atol, otimizamos nosso tempo com deslocamentos menores para encontrar os animais, o que também resultou em tours com valores mais atrativos. Além disso, o fato de Fulidhoo ser uma ilha local nos permitiu vivenciar esse paraíso de forma autêntica, sem a necessidade dos gastos exorbitantes dos resorts de luxo.

Logo após o check-in no hotel, saímos em busca de um restaurante para saciar nossa fome, que àquela altura já era grande. Optamos pelo próprio restaurante do nosso hotel o Royal Sunrise Restaurant, onde pedimos deliciosos baguetes.
De barriga cheia, finalmente partimos para explorar a ilha. Para nossa primeira parada, retornamos à região próxima ao píer de Fulidhoo, localizado na parte sul da ilha, onde fomos recebidos por um espetáculo natural incrível: diversas Arraias e Tubarões Lixa nadando calmamente nas águas rasas.

As Arraias Chicote Rosa (Pateobatis fai) pertencem ao grupo dos peixes cartilaginosos, apresentando corpos achatados e movimentos elegantes que parecem voos subaquáticos. São conhecidas pela sua coloração cinza-rosada e por possuírem uma cauda extremamente longa, que lembra um chicote. Embora possuam um ferrão serrilhado e venenoso na base da cauda, este é utilizado apenas para defesa caso se sintam encurraladas.
Já os Tubarões Lixa (Ginglymostoma cirratum), também conhecido pelo seu nome em ingês: Nurse Sharks, apesar de sua natureza dócil e movimentos lentos, possuem uma aparência robusta e uma coloração castanha característica. Esses gigantes gentis podem atingir dimensões impressionantes, chegando a medir até 3 metros de comprimento e pesar mais de 100 kg.

Tanto as arraias quanto os tubarões frequentam o local devido a uma tradição antiga dos pescadores da ilha, que costumam limpar seus peixes ali ao final do dia. Atraídos pelos restos descartados, eles acabaram se habituando à presença humana e transformaram o entorno do píer em seu ponto de encontro diário, permitindo uma observação fascinante a poucos metros da areia. Arriscamos até entrar na água para algumas fotos com esses lindos animais selvagens.
Nossa exploração pela ilha continuou em sentido anti-horário em direção ao oeste. Essa é a parte menos bonita da ilha onde se localiza a estação de geração de energia e o local onde é queimado o lixo da ilha.
Chegamos então a parte norte, onde encontramos uma praia frequentada por alguns moradores locais e pudemos tirar fotos espetaculares, tendo como cenário o mar cristalino.


E para terminar a exploração da ilha, chegamos a parte leste, onde se localiza a Bikini Beach. As “Bikini Beachs” das ilhas locais das Maldivas são as únicas áreas onde é permitido o uso de trajes de banho ocidentais. O visual ali é o verdadeiro cartão-postal das Maldivas, com uma faixa de areia branca e macia, apesar da água ali ter uma cor bastante leitosa, e não tão cristalina como na parte norte. Esse é o lugar perfeito para relaxar e apreciar o horizonte sem pressa. Foi o encerramento perfeito para nossa caminhada, aproveitando a brisa do mar e a tranquilidade que só uma ilha local como Fulidhoo consegue oferecer.

À noite, voltamos ao Royal Sunrise Restaurant, desta vez para jantar. Escolhemos o arroz frito que, apesar de não ser um prato típico das Maldivas, é muito comum por aqui.

Para nossa surpresa, pudemos observar, bem em frente ao restaurante e à beira da praia, vários enormes Tubarões Lixa. Além disso, conseguimos avistar pequenos Tubarões de Ponta Preta de Recife (Carcharhinus melanopterus) patrulhando as águas rasas. Esses animais são, na verdade, filhotes que utilizam a orla como um berçário natural; eles permanecem ali para se protegerem de predadores maiores e para caçarem pequenos peixes com facilidade. Enquanto os exemplares que vemos no raso medem entre 30 e 60 centímetros, um adulto desta espécie pode atingir cerca de 2 metros. Ao crescerem, eles naturalmente migram para áreas mais profundas e para a borda dos recifes.
No dia seguinte, decidimos realizar nosso primeiro passeio de barco nas Maldivas. O grande objetivo do dia era a experiência única de nadar com Tubarões Lixa. Deixamos o hotel logo cedo e seguimos para o píer, de onde partimos pontualmente às 9 horas em busca desses animais. O tour foi compartilhado com outros viajantes; ao todo, éramos apenas 4 passageiros a bordo, além do nosso carismático capitão Abdulla, seus dois assistentes, os Muhammads e do nosso guia/vídeo maker Seyen!
Após alguns minutos de navegação, chegamos ao Ponto dos Tubarões de Fulidhoo (Fulidhoo Shark Point), onde muitos tubarões se concentravam. Seguindo as orientações do nosso guia, entramos na água vagarosamente, no início com certo medo e receio dos animais. Vale lembrar que, apesar de serem considerados dóceis, já houve registros de mordidas de Tubarões Lixa.

Com o suporte do nosso guia e o uso de nossa câmera aquática, conseguimos fotos e vídeos impressionantes com esses habitantes do mar.

Não encontramos apenas o Tubarão Lixa no local, mas também algumas Arraias Chicote Rosa remexendo a areia do fundo, e até um Tubarão de Ponta Preta do Recife relativamente grande, alimentando-se de peixes menores. Foi, sem dúvida, um daqueles locais que ficam guardados na mente para sempre.

Nossa parada seguinte foi no recife de corais chamado de Ponto das Tartarugas (Turtle Point), onde encontramos 2 lindas Tartarugas de Pente (Eretmochelys imbricata) nadando calmamente e se alimentando de alguns corais no fundo do mar. É fascinante notar que esses animais podem permanecer até 5 horas debaixo da água.

Além das tartarugas, também avistamos alguns exemplares do meu peixe favorito no mundo: o deslumbrante Ídolo Mouro (Zanclus cornutus). Ele é famoso por sua longa e flutuante barbatana dorsal e pelo seu focinho tubular, perfeitamente adaptado para buscar alimento em fendas de difícil acesso. Especialista nato, ele tem uma dieta seleta baseada em esponjas marinhas. Além de sua beleza exótica, a espécie é mundialmente reconhecida como o personagem Gill, o experiente líder do aquário no filme "Procurando Nemo".

Logo depois, avistamos o Bodião de Hardwicke (Thalassoma hardwicke), facilmente reconhecível por suas seis barras verticais escuras que cruzam o corpo.

Partimos então para última parada do nosso roteiro, no Jardim de Corais (Coral). Embora este não seja o recife mais vibrante que já exploramos, a experiência foi compensada pela interessante biodiversidade marinha que cruzou nosso caminho. O grande destaque ficou para a dupla de Peixes Borboleta de Sela Dupla (Chaetodon falcula). Esses peixes são facilmente reconhecidos pelas duas manchas pretas distintas no dorso, que lembram selas, e por serem animais que geralmente vivem em pares, simbolizando uma parceria fiel no ecossistema dos recifes.

Além deles, fomos acompanhados por Peixes Cirurgião Azul Claro (Acanthurus leucosternon). Eles estão entre as espécies mais comuns de se encontrar durante o snorkel por aqui, mas nem por isso deixam de impressionar. Com seu corpo azul vibrante e barbatana dorsal amarela, eles recebem o nome de "cirurgião" devido às pequenas espinhas afiadas como bisturis que possuem na base da cauda, usadas para defesa.

De volta ao barco, navegamos rumo a Fulidhoo, completando um dia inesquecível de exploração marinha. Esse passeio completo com duração de cerca de três horas nos custou 50 euros por pessoa.
Retornamos a Fulidhoo pouco após o meio-dia e, enquanto almoçávamos, fomos surpreendidos por um dos habitantes mais fascinantes da ilha em uma árvore ao lado do restaurante: um Lagarto de Jardim Oriental (Calotes versicolor), uma espécie célebre por sua impressionante capacidade de mudar de cor.

Após um almoço revigorante, optamos por uma pequena caminhada próximo à região do píer para algumas fotos.

Enfim voltamos ao hotel para recuperar as energias. O descanso era estratégico: sabíamos que o dia ainda nos reservava um desfecho memorável. O roteiro guardava para o final da tarde uma experiência autêntica e fascinante: um tour de pesca ao pôr do sol.
Pontualmente às 17h30, partimos do Píer de Fulidhoo. Estávamos eu, minha esposa e outros quatro turistas, acompanhados pela mesma tripulação dedicada do nosso tour anterior. Navegamos por alguns quilômetros da costa até ancorarmos em um ponto estratégico para dar início à pescaria.

O começo foi silencioso e a expectativa parecia não se concretizar, mas tudo mudou com a queda do sol. Assim que o horizonte começou a ganhar cores vibrantes, o primeiro peixe fisgado por um de nossos colegas animou o grupo. Com aquela "inveja boa" que motiva qualquer pescador, e com as orientacoes do capitao do barco, o Abdulla, que nos contou ser um experiente pescador, logo começamos a sentir os primeiros puxões na linha.

Ao final da expedição, o saldo foi excelente: eu e minha esposa garantimos 6 Barracudas e um peixe de coral amarelo (que permaneceu um mistério). Já nossos companheiros de barco pescaram mais 7 Barracudas e um belo Peixe Cirurgião Amarelo.

Duas horas e meia após a nossa partida, retornamos a Fulidhoo, onde o cozinheiro Ali já nos aguardava no Royal Sunrise Restaurant para limpar e grelhar os peixes. Tivemos o direito de consumir todos os sete peixes que pescamos; no entanto, como a quantidade era excessiva para apenas duas pessoas, decidimos compartilhá-los com a equipe do restaurante. Esse tour, que incluiu tanto o preparo quanto o consumo da pesca, custou 30 dólares americanos por pessoa.

Para o nosso terceiro dia em Fulidhoo, o foco total foi a vida marinha. Escolhemos o tour “Corais Felizes” (Happy Corals), organizado pelo nosso hotel. Partimos do píer pontualmente às 9h da manhã, com um grupo de seis passageiros e a excelente tripulação de quatro pessoas. Para alcançar o recife de corais do dia, navegamos além dos arredores de Fulidhoo em direção à região da Ilha de Kunaavashi, posicionada estrategicamente próxima a dois resorts de luxo: o NOOE Maldives Kunaavashi e o Cocogiri Island Resort Maldives. Com os equipamentos de snorkel ajustados, seguimos nosso guia, Seyen, para dentro d'água. Que experiência memorável! Este recife estava visivelmente mais vibrante e cheio de vida do que o do dia anterior.

Logo ao começar nosso período de snorkel, encontramos um enorme cardume de Peixes Bode de Traço Preto (Parupeneus barberinus), famosos pelo desenho de um “–” e um “.” em seu corpo.

Na sequência, avistamos um pequeno coral coberto de vida, com destaque para um grande grupo de Peixes Donzelas de Cauda Branca (Dascyllus aruanus), que entravam e saíam freneticamente entre as ramificações dos corais ao menor sinal de movimento.

Encontramos então uma espécie endêmica da região, os Peixes Palhaço das Maldivas (Amphiprion nigripes), que se protegiam nos tentáculos de sua anêmona hospedeira.

Observamos também o trabalho incansável do Peixe Bodião Limpador (Labroides dimidiatus), um pequeno peixe azul neom que montava sua "estação de serviço" para remover parasitas de visitantes maiores.

Logo abaixo, o Pepino do Mar de Graeffe (Pearsonothuria graeffei), filtrando calmamente os sedimentos sobre um coral.

A beleza do recife ficou ainda mais evidente quando cruzamos com o Peixe Anjo Real (Pygoplites diacanthus), com suas lindas listras coloridas, que o tornam um dos mais belos peixes que já presenciei.

Perto dali, um casal de Peixes Lábio Doce Oriental (Plectorhinchus vitta-tus) chamavam a atenção por seus lábios carnudos e o padrão de listras horizontais contrastantes. Eles perseguiam um imponente Peixe Porco Titã (Balistoides viridescens), um dos peixes mais temidos do oceano, com sua mandíbula poderosa, capaz de triturar corais e conchas.

Após mais de uma hora de snorkel, que passaram voando como se fossem dez minutos, retornamos a Fulidhoo às 11h30. Este tour teve o custo de 35 dólares americanos por pessoa.

Após o almoço e um breve descanso, decidimos explorar o “Coral da Casa” (House Reef) da ilha de Fulidhoo. O House Reef é o recife de corais localizado a poucos metros da areia, que pode ser explorado por conta própria, sem a necessidade de barcos. Lá, tivemos achados interessantes, como o Peixe Cirurgião de Linhas Azuis (Acanthurus lineatus), lindíssimo com suas icônicas listras.

Por fim, ainda conseguimos identificar o Peixe Cirurgião Presidiário (Acanthurus triostegus), cujo nome é devido às suas 6 listras marcantes, que lembram o uniforme de um detento.

Às 16h30, embarcamos em uma nova jornada, desta vez em busca dos ágeis golfinhos. Éramos 7 passageiros e 4 integrantes da tripulação, com uma substituição em relação ao grupo de tripulantes dos três tours anteriores, o guia Seyen deu lugar ao Fotógrafo Ahmed. Em mar aberto, fomos rapidamente cercados por um casal de Golfinhos Rotadores (Stenella longirostris), que tem esse nome, devido ao fato de ser a única espécie de golfinhos que realiza um salto rotacionando ao redor do seu próprio eixo.

A busca continuou e avistamos diversos pequenos grupos pelo caminho, até fazermos uma pausa em um ponto onde a água, de tão cristalina, parecia uma piscina. Ali, desfrutamos de drinks refrescantes preparados pelo capitão Abdulla. Vale lembrar que eram mocktails (sem álcool), já que, sendo as Maldivas um país muçulmano, bebidas alcoólicas são restritas apenas aos resorts em ilhas privativas.

No caminho de volta, tive a chance de assumir a boléia do barco por alguns minutos!

Mas o melhor ficou para o final: encontramos um grupo enorme de golfinhos em alta velocidade. Quando os ultrapassamos, eles começaram a surfar e saltar nas ondas formadas pelo barco. A alegria deles trouxe uma energia contagiante a todos a bordo. Retornamos ao píer de Fulidhoo pouco depois das 18h30. Esse tour nos custou 35 dólares americanos por pessoa.

Encerramos o dia observando o pôr do sol, sentindo uma imensa gratidão por conhecer um destino tão deslumbrante. O jantar foi novamente no Royal Sunset Restaurant, onde provamos a Garudhiya, uma sopa de peixe tradicional servida com arroz, limão e pimenta. Foi o desfecho perfeito para nossa estadia em Fulidhoo.

Pontualmente às 6h30 da manhã seguinte, embarcamos na lancha rápida (speedboat) em direção à Ilha de Hulhulé (40 dólares americanos por pessoa), onde fica o aeroporto. Ao partirmos, deixamos para trás a encantadora Fulidhoo, um lugar que guardaremos com muito carinho na memória. Foi ali que vivemos os melhores passeios da viagem e onde tivemos a sorte de cruzar o caminho de algumas das pessoas mais amáveis que já conhecemos.


Comentários